Partido de Blair deixou os postulados socialistas
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terça-feira, 29 de abril de 1997
Agência Estado 
LONDRES - A vitória eventual do Partido Trabalhista significaria um golpe no socialismo na Grã-Bretanha, com reflexos na Europa, e não o abandono pelos britânicos do liberalismo criado por Margaret Thatcher e adotado por dirigentes políticos de meio mundo - do Brasil inclusive. É assim que historiadores e acadêmicos de diferentes escolas estão interpretando o comportamento do eleitorado, diante do pleito de amanhã.
Argumentam eles que o Partido Trabalhista de Tony Blair, ao abandonar o capítulo 4 da sua Carta (que defendia o controle dos meios de produção pelos trabalhadores) e ao incorporar no seu manifesto algumas das idéias do thatcherismo, como a validade da privatização de empresas e serviços públicos, já não pode mais ser chamado de uma agremiação socialista, nos termos conhecidos.
Blair não aceita esta interpretação e insiste em dizer, com as suas palavras, que continua a lutar pela igualdade de oportunidades para todos os britânicos, só que por métodos mais modernos. Mas a esquerda trabalhista, que se mantém calada para não perturbar o caminho da vitória, estaria descontente porque também acredita que os ideais dos fundadores do partido estariam sendo desvirtuadas pelo novo líder.
A discussão sobre o novo trabalhismo já cruzou o Canal da Mancha e é agora tema de debate também na França, entre líderes da esquerda e da direita.
A propósito, o ministro da Fazenda britânico, Kenneth Clarke, admitiu numa roda a angústia que lhe deu o fato de a direção do partido ter permitido que a questão da união monetária, na Europa, ganhasse fôlego e tomasse o lugar da grande arma que os conservadores tiveram, que é o bom andamento da economia, em que pese os milhões de britânicos que ainda necessitam de assistência social para sobreviver.
Insistindo no lado econômico, no pensamento de Clarke, os estrategistas e promotores da campanha eleitoral conservadora teriam podido explorar com maior eficácia a girada que Blair deu no partido, para poder levá-lo de volta ao poder. Teriam podido advertir a classe média, com maior insistência, para a possibilidade de o novo trabalhismo ser apenas de fachada, uma tática. De posse do governo, ele permitiria aos sindicatos restabelecer as amarras do crescimento industrial.
A ênfase na economia, ainda segundo Clarke, teria ainda uma outra função importante, já que ajudaria a camuflar o tumor criado no Partido Conservador pela questão da união monetária, que rachou sua bancada no Parlamento quase pelo meio.
Tão séria é a divisão que o jornal Financial Times, bíblia dos homens de negócios e politicamente um diário conservador, pela crença que tem na economia de mercado, declarou em editorial que nestas eleições o partido de John Major não terá o seu apoio.
A Grã-Bretanha vive um momento complicado. Quer usufruir dos benefícios comerciais de estar fisicamente na Europa, vendendo seus produtos principalmente para os europeus, mas se recusa a fazer parte do que Major chama de federação européia, governada de Bruxelas, e que os chamados eurocéticos, à direita do partido, vêem como a entrega da soberania britânica a burocratas na capital belga. (J.C.S.)


