Sem-terra ameaçam fechar rodovias caso governo não autorize reforma agrária na fazenda onde três trabalhadores foram mortos sábado
TensãoOntem, alguns sem-terra montavam guarda nas proximidades da Fazenda Esperança, que fica há 320 quilômetros ao norte de Assunção, capital paraguaia

Emerson Dias
De Foz do Iguaçu
Especial para Folha
Depois de três campesinos (sem-terra paraguaios) terem sido mortos no último sábado durante um confronto com a Polícia Nacional na Fazenda Esperança, propriedade do brasileiro Evaldo Emílio de Araújo, o Instituto do Bem-estar Rural do Paraguai (IBR) realizou uma reunião ontem em San Vicente - cerca de 350 quilômetros de Foz do Iguaçu - na tentativa de evitar novos conflitos em propriedades rurais do País.
Representantes dos sem-terra que participaram da reunião querem iniciar um protesto nacional, fechando rodovias e fazer barreiras nas estradas rurais, caso o governo paraguaio não autorize a liberação para reforma agrária de pelo menos dez mil dos 35 mil hectares da fazenda. Esta área seria destinada ao assentamento imediato de mil famílias.
Na reunião de duas horas e meia entre os líderes dos ‘‘sem-terra’’ e o ministro do Trabalho e Segurança Social, Sílvio Ferreira, surgiu uma proposta que deverá ser analisada pelo governo em Assunção em 48 horas. O presidente paraguaio, Luis González Macchi, adiantou no início da tarde de ontem que sua administração não dispõe de fundos para adquirir os 24 mil hectares exigidos a princípio pelos ‘‘sem-terra’’, oferecendo cinco mil hectares em uma primeira etapa.
O fazendeiro brasileiro não participou da reunião. Segundo uma jornalista paraguaia, Araújo disse apenas que a polícia acatou a ordem de desocupação da juíza Dora de Aguero, não cometendo nenhum crime. No domingo, o fazendeiro visitou alguns dos policiais que estão internados em um hospital de San Vicente.
Dos 24 feridos, oito são da polícia Nacional. Cerca de 80 sem-terra dos 300 que invadiram a fazenda ainda estão presos na delegacia da cidade paraguaia.
Jornalistas paraguaios informam que esse foi o terceiro, e o mais grave, incidente em pouco mais de um ano. Há dois meses, o mesmo grupo de campesinos tentou invadir a fazenda. No final de 1998, outro confronto resultou na morte de um sem-terra, entre vários feridos.
No lado brasileiro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da região Noroeste e a Rede Nacional Autônoma de Advogados Populares (Renaap), alertaram ontem sobre o risco de conflito entre acampados nas fazendas Figueira e Sandra (região de Paranavaí), com a Polícia Militar, em caso de desocupação das duas áreas. Na sexta-feira da semana passada, quando a PM estava mobilizada para promover a desocupação de áreas na região Norte, os sem-terra acampados em fazendas do Noroeste se prepararam para um confronto. ‘‘O governo colocou todo aparato do Estado para reprimir os trabalhadores rurais, depois de um acordo com a bancada ruralista da Assembléia, que vai garantir a aprovação de projetos oficiais’’, diz nota conjunta do MST e do Renaap.
O MST e o Renaap não se aprofundam sobre a intenção dos sem-terra, mas os próprios acampados nas duas áreas e na Fazenda Cobrinco, todas na região Noroeste, confirmam que pretendem resistir. São cerca de cem famílias em cada acampamento, que alegam não ter mais opção a não ser defender a terra onde estão. Os sem-terra lembram que em todos os acampamentos o número de crianças e mulheres é grande, e que as famílias podem resistir a uma ordem de desocupação.
A nota denuncia a forma como a polícia é usada para ‘‘reprimir’’ os trabalhadores. ‘‘Na média são quatro policiais para cada sem-terra’’, alegam o MST e a Renaap. Outro trecho da nota lembra que o Estado usa todo aparato disponível, de grupos especiais a tropas de choque, que apreendem ferramentas de trabalho dos sem-terra, ‘‘que são mandados para o local de origem’’. ‘‘Os sem-terra são agredidos, humilhados e ameaçados de morte em caso de novamente encontrados em área ocupada.’’
Os advogados populares reclamam também da decretação da prisão temporária de 13 líderes do MST na região, ‘‘articulada pela juíza de Loanda, Elisabeth Khater - conhecida amiga dos latifundiários’’, denuncia a nota. As prisões, consideradas arbitrárias pelos advogados, têm o único propósito de impedir a organização dos trabalhadores. Por outro lado, os advogados lembram que jagunços e fazendeiros que agrediram e mataram para desocupar propriedades, estão soltos. (Colaboraram sucursal de Maringá e agência France Presse)