France PresseDesafioParaguaios participam de manifestação em Assunção. Metade da população subsiste abaixo da linha da pobreza Se tudo der certo, o povo paraguaio fará história, em breve. Nunca, desde que a nação foi fundada, em 1811, um presidente civil foi substituído por outro presidente civil eleito. A eleição presidencial de domingo, dia 10, aparentemente romperá esse padrão, por fim.
A Suprema Corte afastou todos os principais obstáculos legais à votação. O Exército permanece tranquilo nos quartéis. A lista oficial dos candidatos não inclui nenhum uniformizado, e o presidente Juan Carlos Wasmosy, proibido pela Constituição de disputar um segundo mandato, prometeu em Assunção respeitar a decisão do povo. Tudo parece estar em ordem para uma transferência pacífica do poder.
Será que isso significa que os paraguaios estão erguendo brindes ao triunfo da democracia? Dificilmente. Muitos deles nem sequer têm certeza de que desejam a democracia. Muitas pessoas confessam que estão saudosas da ditadura do general Alfredo Stroessner, que governou de 1954 até sua deposição incruenta em 1989.
Arquivo FolhaDomingo Laíno, o candidato das oposições
Ele é capaz, afirmam essas pessoas, e seu regime não foi tão sangrento quanto outros governos militares da América Latina. Depois de quase cinco anos de governo civil eleito, os resultados das pesquisas de opinião pública feitas no Paraguai estão praticamente empatados entre os fãs da democracia e os que preferem o governo autoritário.
Nem todos acham que esse sistema repleto de subornos merece o nome de democracia. Na semana passada a Suprema Corte desqualificou um candidato que era o favorito nas eleições. Durante o golpe de 1989, o general Lino Oviedo foi o homem que invadiu o abrigo de Stroessner segurando na mão uma granada e forçando a sua rendição. Essa ação ousada ajudou Oviedo a se tornar comandante do Exército, cargo que manteve até abril de 1996, quando Wasmosy, queixando-se da interferência militar em assuntos civis, exigiu sua renúncia.
No fim do ano passado começou a corrida pela indicação para candidato à presidência pelo Partido Colorado - e o general viu nisso uma oportunidade de acertar antigas contas. Levando sua campanha às bases do partido na zona rural, Oviedo desafiou vigorosamente o homem escolhido a dedo por Wasmosy para ser nomeado candidato pelos colorados. Para desgosto dos amigos de Wasmosy que integram a liderança do partido, o general foi o indicado.
Arquivo FolhaRaul Cubas Grau, o candidato situacionista
Os caciques partidários reagiram. Se eles não o impedissem, Oviedo com certeza seria o novo presidente. O verdadeiro sistema bipartidário mal começou a evoluir no Paraguai. Em dezembro Oviedo foi preso por difamar o presidente. Ele foi acusado de ter chamado Wasmosy de corrupto e mentiroso. Depois de preso, também foi acusado de ter sido líder de uma tentativa de golpe militar, em vista de sua recusa, em 1996, a deixar seu cargo de comandante do Exército.
Embora Oviedo insista em afirmar que não houve tentativa de golpe, foi considerado culpado de liderar a ação. Isso ainda não pôs fim à sua campanha. Circularam rumores de que o Exército interferiria novamente, para não deixar Oviedo vencer. Essa possibilidade despertou o receio de que Washington e os vizinhos do Paraguai no Mercosul viessem a punir o governo apóstata com sanções econômicas.
A Suprema Corte evitou um confronto na semana passada ao manter a condenação de Oviedo a 10 anos de prisão. A indicação foi transferida para o seu colega de chapa, Raul Cubas. ‘‘Ele é um bom engenheiro, uma boa pessoa, um excelente profissional e homem de negócios’’, afirma Wasmosy. Cubas prometeu perdoar seu mentor, o general Oviedo, se for eleito.
Curar as demais doenças do Paraguai não será fácil. No Hemisfério Ocidental, só o Haiti e Cuba têm crescimento econômico inferior ao seu. Dois terços do povo paraguaio são analfabetos. Menos da metade deles tem acesso à água tratada. Cerca da metade subsiste abaixo da linha da pobreza. Nessas circunstâncias, é fácil esquecer o valor da liberdade - e mandar para o diabo o que a história diz.

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