Paraguai experimenta uma solução diferente
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sábado, 03 de abril de 1999
Valmir Denardin Enviado a Assunção 
Na última terça-feira, os paraguaios assistiram ao vivo, pela TV, a uma cena que não viam havia 52 anos: opositores ao Partido Colorado subindo as escadarias do Palácio de López, sede do governo, para tomar posse como ministros de Estado. O último governo de coalizão no Paraguai foi tentado em 1947, pelo presidente Higino Morí¤igo, que acabou deposto.
Com o currículo manchado por uma ditadura militar que durou 35 anos, denúncias de corrupção e empreguismo no serviço público, o Partido Colorado - que tem 900 mil filiados (mais de 17% da população paraguaia) e governa o país há cinco décadas - percebeu que era preciso dividir o poder para tentar mantê-lo.
A crise política aguda que culminou em um governo de coalizão foi gerada pelo assassinato do vice-presidente, Luis María Arga¤a, no último dia 23 de março. Os principais acusados do crime: o presidente, Raúl Cubas Grau, e seu mentor político, o general de reserva Lino Oviedo. Apesar de pertencerem ao mesmo partido do vice, Cubas e Oviedo eram inimigos declarados de Arga¤a.
Ameaçado por um processo de impeachment no Congresso e pressionado por uma inesperada e intensa reação popular, Cubas renunciou ao cargo no dia 28, um dia depois que franco-atiradores supostamente pagos por seus aliados mataram quatro pessoas e feriram mais de 500 na tentativa de repelir uma manifestação contra o governo na Praça do Congresso. Após a renúncia, Cubas obteve asilo político no Brasil. No mesmo dia, Oviedo conseguiu asilo na Argentina, depois de fugir, inexplicavelmente, do Batalhão da Guarda Presidencial, onde estava preso.
O comando político desse país estraçalhado foi herdado pelo presidente do Congresso, o colorado da ala arga¤ista Luis González Macchi. Sem outra alternativa, Macchi convocou a oposição para uma aliança política que permita a governabilidade. Entregou quatro dos dez ministérios e cargos importantes de escalões inferiores às duas principais legendas de oposição - o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) e o Partido do Encontro Nacional (PEN).
Para se manter no poder até 2003 - quando se encerra o atual período presidencial - Macchi negociou com a oposição uma saída à paraguaia. Haverá uma eleição presidencial em um prazo de seis meses, como exige a Constituição em caso de vacância dos cargos de presidente e vice. Mas será uma eleição meramente formal, já que o acordo costurado na semana passada prevê chapa única, com Macchi na presidência e o candidato à vice sendo indicado pelo PLRA, o maior partido de oposição, com 650 mil filiados. Esse nome ainda não está definido.
Era o único meio de salvar a vida de um paciente gravemente enfermo, avaliou, em entrevista à Folha, o deputado Marcelo Duarte Manzoni (PEN). A oposição condicionou a participação no governo à elaboração, em 100 dias, de um programa de metas com quatro pontos principais: o resgate da credibilidade do país com o combate à impunidade, à corrupção e à criminalidade; a reforma do Estado; a retomada do crescimento econômico e a geração de empregos.
Se as coisas forem mal, vamos pedir aos nossos ministros que se retirem do governo, disse o senador Julio César Franco, presidente do PRLA, contemplado com os ministérios das Relações Exteriores e da Agropecuária. Nos primeiros 30 dias, já é preciso haver sinais claros de um programa mínimo, que precisará ser implementado em, no máximo, quatro meses, completou o senador Euclides Acevedo, presidente do PEN, detentor das pastas de Indústria e Comércio e Justiça e Trabalho. Em quatro meses, os dois partidos de oposição realizarão convenções internas para confirmar - ou retirar - sua participação no governo colorado.
A tarefa da aliança partidária não será fácil. Para atrair investidores externos, o Paraguai terá que apagar uma imagem arraigada de ser paraíso da corrupção, do contrabando, da venda de mercadorias falsificadas e da impunidade. Em um ranking mundial da corrupção, elaborado em 1998 pela Organização Não-Governamental (ONG) Transparência Internacional, o país ficou em segundo lugar, atrás apenas de Camarões, um remoto país africano. Se o novo presidente botar dez ladrões na cadeia, já abaixa o nível da roubalheira, acredita o deputado Franklin Boccia, líder do PRLA na Câmara.
Além da corrupção crônica, a economia paraguaia é uma das mais fracas do continente - com parque industrial incipiente, o país importa quase tudo que consome. O desemprego atinge 20% da população economicamente ativa. Nesse cenário de estagnação, o emprego público sustenta boa parte das famílias e ainda é o principal responsável pela manutenção do Partido Colorado no poder. Os 180 mil cargos públicos são usados como moeda eleitoral.
Não é difícil prever que o saneamento do Estado, com a demissão de funcionários públicos, defendida pelos liberais, vá encontrar resistência dos colorados. Outro ponto de embate deverá ser a proposta de privatização de empresas públicas. Desde 89, não se privatizou nenhuma grande estatal, lamento o presidente da Câmara dos Deputados, Bras Llano (PRLA). A venda de novas empresas será outra barreira imposta pela maioria colorada, francamente estatizante.


