Paraguai está em estado de sítio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de julho de 2002
Alexandre Palmar <br>Equipe da Folha 
Foz do IguaçuPerto de mil e quinhentos paraguaios entraram em choque ontem com a polícia em Ciudad del Este, fronteira com Foz do Iguaçu, durante o protesto para exigir a renúncia do presidente Luis González Macchi, acusado de corrupção e propagar mazelas sociais. Pelo menos 50 pessoas ficaram feridas, entre eles duas crianças. Outras 25 foram presas.
Acuado, o governo decretou Estado de Exceção (Sítio) por cinco dias. A medida restringe os direitos civis, proibindo a realização de reuniões públicas ou protestos. E aumenta os poderes das Forças Armadas, que agora podem prender sem mandado judicial ou flagrante delito.
Também aconteceram manifestos e bloqueios de rodovias em várias regiões do departamento (estado) de Alto Paraná, e em outros quatro estados, como Concepción, Caaguazú e Encarnación onde é grande o número de campesinos. Os sem-terra paraguaios exigem o retorno do ex-general Lino Cesar Oviedo, atualmente refugiado no Brasil. Em Assunção, houve protesto em frente ao Congresso Nacional.
O confronto ocorreu após 500 paraguaios, que se reuniram com Oviedo em Foz, fecharem a Ponte da Amizade, por volta das 6 horas. A Marinha tentou desocupar a pista, mas o grupo recuou até o lado brasileiro da fronteira. Enquanto eles exigiam a saída de Macchi, outras 500 pessoas reforçavam o coro pela reúncia, próximo à aduana.
Às 9 horas, 35 policiais do pelotão de choque avançaram contra os paraguaios da aduana com um tanque antimotim, atirando bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha. A tropa foi recebida com pedras, paus, rojões e garrafas. O centro comercial virou uma praça de guerra, com pontos de confronto em várias esquinas.
Foram montadas barricadas, com queima de pneus e outros objetos. Com o ceú escuro por causa da fumaça, garrafas com gasolina e bolas de gude começaram a ser jogadas contra os soldados. Às 10h, já eram 1.500 protestantes e 200 soldados. Ainda na manhã, policiais ficaram sem munição antimotim e passaram a revidar com pedras e paus.
Ao meio-dia a situação amenizou, porém à tarde o confronto recomeçou, com a destruição de barracas, fachadas de dezenas de estabelecimentos comerciais e bancos de praças. Grupos isolados saquearam três lojas. Um helicóptero pousou no teto do Banco Sudameris para recolher feridos e malotes com dinheiro.
O conflito se agravou quando um atirador feriu um soldado na virilha. Enfurecidos, policiais revidaram com tiros de pistolas. Um homem foi atingido nas nádegas, outro no braço e um no abdômen. A resposta: um caminhão de som aumentou o volume das repetidas execuções do Hino Nacional e da música da Seleção de Futebol do Paraguai, encorajando os manifestantes outra vez.
''A Argentina trocou três presidentes em pouco tempo. Já está na hora da gente fazer o mesmo, nem que seja preciso morrer'', disse o diregente campesino Rodrigo NuÀez, enquanto um paraguaio mostrava as mãos vazias aos policiais.
Os dois principais hospitais de Ciudad del Este lotaram e racionaram medicamentos. A Ponte da Amizade foi liberada no fim da tarde. Perto das 18 horas, chegou reforço de 100 militares. O clima era tenso até à noite e existia possibilidade de novos conflitos.


