Para escritor, caso Jean não terá punição
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sábado, 21 de julho de 2007
Marco Aurélio Canônico<br>Folhapress 
São Paulo - Há exatos dois anos, o eletricista mineiro Jean Charles de Menezes, 27 anos, foi assassinado pela polícia britânica com sete tiros na cabeça, em uma estação de metrô de Londres, após ser confundido com um terrorista que estava sendo vigiado. À sua morte se seguiram falsas acusações da polícia - de que seria imigrante ilegal, estuprador, estaria com roupas suspeitas - e impunidade para todos os envolvidos no caso.
É sobre a falta de punição e a farsa da polícia britânica que o escritor carioca Ivan Sant'Anna se debruçou para escrever o recém-lançado ''Em Nome de Sua Majestade - A Morte de Jean Charles de Menezes no Metrô de Londres'' (ed. Objetiva, 174 págs., R$ 28). ''Jean Charles foi vítima de incompetência e vilania. A polícia o seguiu e teve 33 minutos para identificar uma pessoa que era completamente diferente da que eles estavam procurando, mas não o fizeram'', disse Sant'Anna à Folha.
O brasileiro foi morto no dia 22, duas semanas depois dos atentados terroristas de 7 de julho de 2005, que mataram 52 pessoas em Londres, e um dia depois de ataques frustrados na capital. Era um dos terroristas que tentaram atacar na véspera - o etíope Osman Hussein - que a polícia vigiava no prédio em que morava Jean Charles, e foi com ele que o mineiro foi confundido. ''Bastava ter descrito o Jean Charles para ver que ele não era o suspeito vigiado.''
O escritor entrevistou diversas pessoas envolvidas com o mineiro, como seus pais, e a responsável por revelar a farsa montada pela polícia, Lana Vandenberghe, ex-secretária da Comissão Independente de Queixas à Polícia (IPCC).
Sem punição - Baseando-se no histórico da Justiça britânica - que nunca condenou um policial por assassinato enquanto em serviço -, Sant'Anna afirma que é improvável que haja alguma punição dos envolvidos.
Há um ano, a Procuradoria Geral do Reino Unido alegou que as evidências para punir os oficiais envolvidos eram ''insuficientes'' e decidiu processar apenas a Scotland Yard como instituição, por descumprimento da lei de saúde e segurança - segundo a qual a polícia deve zelar pelo bem-estar de terceiros durante suas ações. ''Só falta uma instância para reverter a decisão, a Câmara dos Lordes. Mas, pela tradição britânica, a chance é zero.''
Sant'Anna também não crê que o assassinato teria tido consequências diferentes se a vítima fosse britânica. Em um dos capítulos do livro, ele analisa casos semelhantes, em que inocentes nascidos no Reino Unido foram mortos pela polícia e ninguém foi culpado.
''Em Nome de Sua Majestade'' também analisa a Operação Kratos, o núcleo da Polícia Metropolitana cujos agentes têm licença para matar.
Para marcar os dois anos da morte de Jean Charles, o grupo Justice4Jean deve promover um encontro público hoje à tarde, em Londres.


