Islamabad - O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, afirmou ontem que uma guerra nuclear contra a vizinha Índia é ‘‘impensável’’. Suas declarações são uma tentativa de diminuir a tensão no sul da Ásia num momento em que os dois rivais adotam preparativos para um conflito armado.
A movimentação de tropas nos últimos dias e o tom belicista do governo de Nova Déli – que acusa os paquistaneses de estarem por trás de ações terroristas de separatistas islâmicos da região da Caxemira – levou a ONU a aconselhar os familiares de seus funcionários a deixarem o Paquistão.
França, Bélgica e Espanha divulgaram recomendações semelhantes aos seus cidadãos ontem, seguindo o exemplo de outras nações ocidentais, entre elas os EUA e o Reino Unido. Os vôos que partirão de Islamabad no próximos dias estão lotados – já é difícil conseguir passagens aéreas.
‘‘Não creio que nenhum dos lados seja tão irresponsável a ponto de chegar a esse limite’’, disse Musharraf sobre o eventual uso de armas nucleares, em entrevista à rede CNN. ‘‘As pessoas não deveriam nem estar discutindo essas coisas, pois nenhum indivíduo sensato pode nem mesmo pensar em entrar nessa guerra não-convencional.’’
Cerca de um milhão de soldados das duas partes estão posicionados em regiões de fronteira. Diariamente, trocam disparos de metralhadora e artilharia.
Pelo menos sete civis morreram ontem nos dois lados da Linha de Controle, fronteira militarizada que separa a Caxemira paquistanesa da indiana, em razão de enfrentamentos e de ao menos três atentados.
A crise ganhou ainda novo impulso com a prisão de um diplomata da Embaixada da Índia em Islamabad, acusado de ser um espião. Ele foi libertado horas depois mas, segundo o Paquistão, teria confessado que praticava espionagem.
Ontem, incidente semelhante ocorreu em Nova Déli – autoridades indianas detiveram funcionários da representação diplomática paquistanesa no país.
Na entrevista de ontem, Musharraf disse estar disposto a se encontrar com o premiê indiano, Atal Behari Vajpayee, durante uma reunião de cúpula no Cazaquistão, na próxima semana. ‘‘Isso depende mais dele’’, afirmou.
A escalada da tensão se deve principalmente a dois grandes atentados cometidos pelos separatistas supostamente patrocinados por Islamabad – um contra o Parlamento indiano, em dezembro, e outro em maio, contra base militar na Caxemira, em que 34 pessoas morreram.
Os paquistaneses negam que estejam apoiando os rebeldes islâmicos do Estado indiano de Jammu e Caxemira, contrários ao poder central de Nova Déli. A Índia controla cerca de 45% da Caxemira; o Paquistão, cerca de 33%; e a China, o restante.
Musharraf diz que faz esforços para impedir atividades terroristas na região e que combaterá ‘‘qualquer tipo de militância’’. A Índia argumenta que só palavras não bastam e que, se a violência não for interrompida, o país irá à guerra contra o Paquistão.
Além de recomendar a retirada de seus cidadãos e diplomatas, país como EUA e Reino Unido tentam promover o diálogo. O chanceler britânico, Jack Straw, esteve na região na semana passada. Washington pretende enviar esta semana às duas capitais o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e o subsecretário de Estado Richard Armitage.

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