Roma - Diante de uma multidão na Praça São Pedro, os papas João Paulo 2º e João 23 foram canonizados pelo papa Francisco ontem, em uma missa sem precedentes na história da Igreja Católica. Segundo Francisco, ambos "foram sacerdotes, bispos e papas do século 20, conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas".
O papa mencionou ainda a importância do Concílio Vaticano 2º, encontro convocado por João 23 em 1962 que reformou diretrizes e abriu as portas da Igreja para o mundo moderno. "João 23 demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado", afirmou. "E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano 2º teve diante de si. João 23 e João Paulo 2º colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e atualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária", acrescentou Francisco, que depois da missa passeou de papamóvel pela Praça São Pedro.
A cerimônia contou com a presença do papa emérito Bento 16, que, sentado ao lado dos cardeais, recebeu os cumprimentos do sucessor. A celebração é chamada em Roma de o "dia dos quatro papas" por causa da presença de dois papas na canonização de outros dois. O Vaticano estima que pelo menos um milhão de pessoas acompanharam a missa.
O Concílio Vaticano 2º é apontado por especialistas como o principal recado dele para explicar a decisão de canonizar o italiano João 23 ao lado do polonês João Paulo 2º. Ou seja, o papa faz um gesto religioso, mas também político: João 23, reformador da Igreja e de rápido pontificado (1958-1963), tem a mesma importância histórica que João Paulo 2º, um dos mais populares e que ficou quase 27 anos à frente do Vaticano.
Para especialistas em Vaticano ouvidos pela Folha, é evidente o recado: é importante ser popular, como era João Paulo 2º e Francisco agora parece ser, mas é essencial buscar reformar e atualizar a Igreja, como fez João 23.
"Ele move o foco da canonização do João Paulo 2º em direção ao Concílio Vaticano 2º e também tenta dizer que uma santidade está cima das diferenças dos papados", diz o jornalista americano John Thavis, que cobriu o Vaticano por 30 anos.
Estudioso daquele Concílio e autor de obras sobre os dois papas canonizados, o professor italiano Alberto Melloni avalia que Francisco quer passar a mensagem de que a reforma dos anos 60 foi fundamental para a Igreja, apesar de alguma resistência de conservadores, entre eles o próprio Bento 16, que participou como especialista em teologia.

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