Papa reza missa para 150 mil em Cuba
France Presse
O pastor e o rebanhoJoão Paulo II fala em Santa Clara: aborto e a carência material na Ilha preocupam o Vaticano
Diante de cerca de 150 mil pessoas, num altar em forma de cabana montado num estádio de esportes, o papa João Paulo II celebrou ontem, em Santa Clara, a primeira das quatro missas previstas em sua histórica visita a Cuba criticando com veemência o aborto, permitido pela lei cubana. Em sua homilia, o papa disse que a família passa por uma crise que pode afetar a sociedade, da qual ela é célula fundamental. De acordo com João Paulo II, isso ocorre quando o casal vive em sistemas econômicos e culturais que promovem e defendem uma mentalidade antinatalista, induzindo as pessoas a recorrer a métodos anticoncepcionais incompatíveis com a dignidade humana.
O aborto é um crime abominável, um absurdo empobrecimento da pessoa e da sociedade que o tolera, declarou o papa. Durante a missa, dedicada à família, João Paulo II criticou também a situação social que tem provocado a separação de familiares em Cuba. Alguns aspectos sociais desse amado país têm trazido não poucas dificuldades à estabilidade familiar, lamentou. As carências materiais, como quando os salários não são suficientes, as insatisfações por razões ideológicas e a atração pela sociedade de consumo vêm forçando a separação das famílias há anos e causando imensa dor para uma parte da população cubana.
Os dois temas polêmicos do sermão do papa estão entre as maiores preocupações do Vaticano em relação à ilha. Funcionários da Santa Sé manifestaram ontem consternação com o índice de abortos em Cuba, estimado em 26 para cada 1 mil nascimentos. Os mesmos porta-vozes apresentaram estudos segundo os quais mais de 2 milhões de pessoas emigraram de Cuba, cuja população total é de 12 milhões.
A poucos quilômetros do local onde estão sepultados os restos do líder revolucionário argentino-cubano Ernesto Che Guevara, João Paulo II citou outro herói cubano, José Martí, para defender a volta do ensino religioso às escolas de Cuba. As escolas que a Igreja mantinha no país foram expropriadas após a Revolução Cubana, de 1959, que elevou Fidel Castro ao poder.
A platéia, descrita por testemunhas como comportada, aplaudiu João Paulo II por três vezes, todas elas em referências que o papa fez sobre a liberdade de educação.
Mudando a programação original, a TV cubana decidiu transmitir a missa ao vivo, para todo o país. Autoridades da Igreja cubana haviam protestado contra a intenção do governo de permitir apenas a transmissão da missa de Havana, no domingo. O jornal Granma, órgão oficial do Partido Comunista cubano, também deu ontem grande destaque à chegada do papa ao país, dedicando a ela a metade de sua edição.
À noite, João Paulo II se reuniria com Fidel no Palácio da Revolução, em Havana. Na quarta-feira, no avião que o conduziu a Cuba, o papa disse a jornalistas que levava ao país a revolução de Cristo, que é a revolução do amor, qualificando revoluções como a de Fidel e a de Lenin de revoluções de ódio e vingança.
Em comum, Fidel e o papa têm a posição quanto ao embargo comercial dos EUA contra Cuba. Em Washington, o presidente americano, Bill Clinton, declarou que a aproximação com Havana e o fim do embargo dependem exclusivamente de Fidel. Os americanos condicionam o fim das sanções à democratização da ilha e ao respeito aos direitos humanos.
áHoje João Paulo II vai a Camaguey para falar à juventude, em seu segundo compromisso religioso na ilha de Cuba.





