Cidade do Vaticano - O Papa João Paulo II espera com serenidade a chegada da morte em uma grande cama branca instalada no centro de seu quarto com vista para a Praça de São Pedro do Vaticano.
''É o último desejo de João Paulo II. Não quer falecer entubado dentro de um hospital, mas terminar seus dias com dignidade como Pontífice Romano. Em seu quarto. Com a janela diante da Praça de São Pedro'', escreveu o vaticanista do jornal 'La Repubblica', Marco Politi.
O porta-voz do Sumo Pontífice, Joaquín Navarro Valls, confirmou que o Papa, consciente da gravidade de sua doença, decidiu permanecer em seu quarto, perto do apoio de milhares de fiéis que rezam por ele ao pé de sua janela, ao invés de retornar para seu apartamento no hospital da policlínica Gemelli, onde foi internado duas vezes desde 1º de fevereiro.
Os aposentos privados do Sumo Pontífice ficam no terceiro andar do Palácio Apostólico desde que Pio XI decidiu transferi-los em 1903.
Completamente reformados em 1964, durante o pontificado de Paulo VI, são funcionais, cômodos e acolhedores, mas menos luxuosos do que os históricos salões nos quais o Papa recebeu seus convidados ilustres durante seus quase 27 anos de pontificado, sempre vistos na televisão.
Os apartamentos, com acesso por um vestíbulo, incluem um salão, uma biblioteca privada, um escritório para seu secretário particular, monsenhor Stanislaw Dziwisz, que controla o acesso ao estúdio privado do Santo Padre, assim como uma capela privada, e um refeitório.
Na lateral do imponente palácio, iluminado por três janelas, fica o dormitório, ao lado do qual foi instalado um ambulatório.
''A cama do Papa está praticamente no meio do grande quarto. Uma grande cama coberta com lençóis brancos. Tudo era branco'', explicou ontem à imprensa o cardeal italiano Mario Francesco Pomppedda, do Conselho Pontifício para os textos legislativos, que visitou João Paulo II na tarde de sexta-feira.
''O Papa repousava recostado em grandes almofadas, ligeiramente virado para o lado direito. Seu secretário (monsenhor Stanislaw Dziwisz) e uma freira estavam sentados em cadeiras diante dele. Alguns aparelhos, em torno dos quais estavam duas enfermeiras, estavam situados dos lados da cama'', contou.
''O secretário me apresentou: 'Santo Padre, é o cardeal Pompedda' e (o Papa) virou os olhos para mim. Tinha os olhos um pouco fechados, mas não estava dormindo. Quando meu nome foi pronunciado, os abriu'', disse.
''Surpreendeu-me a beleza deste olhar sorridente. Claramente queria que eu entendesse que me reconhecia (...) Vi que queria me saudar e que se esforçava para dizer algo, mas não pôde fazê-lo'', explicou.
''Não mostrava nenhum sinal de sofrimento, apesar da difícil respiração. Porém, não se queixava. Não tive a impressão de ver um agonizante'', afirmou.
Poucas pessoas tiveram o privilégio de visitar o chefe da Igreja Católica, mas todas concordam que João Paulo II enfrenta tranquilo os últimos instantes na Terra, longe da frieza de um hospital.

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