Quando chegar hoje a Salzburgo, o Papa João Paulo II vai encontrar a Igreja austríaca ainda traumatizada pelo escândalo de abuso sexual contra seminaristas que há três anos obrigou o cardeal arcebispo de Viena, monsenhor Hans Hermann Groer, a renunciar ao cargo.
Afastado desde setembro de 1995, depois das acusações de seus antigos alunos, o alto prelado permanece no exílio, em um convento alemão. Mas sua ausência nesta visita do Papa, a terceira desde 1983, não dissipa o mal-estar que sente uma grande parte dos seis milhões de católicos austríacos (77% da população).
Mais de 50.000 católicos abandonaram a Igreja desde o caso Groer, somente 14% vão regularmente aos templos e, segundo pesquisa do Instituto ISMA publicado esta semana pela revista Profil, 83% dos austríacos dão muito pouca ou nenhuma importância à visita de João Paulo II.
Em um país em que não há separação entre a Igreja e o Estado, essa diferença não impediu que a televisão pública ORF gastasse 12 milhões de xelins (cerca de um milhão de dólares) em 19 horas de transmissão ao vivo da visita do Papa, coincidente, inclusive, com o Mundial de Futebol.
O caso Groer foi o detonador de uma crise que durava anos dentro do catolicismo austríaco, dividido entre uma maioria obediente à hierarquia e uma minoria abertamente disconforme, que questionava a doutrina oficial em temas como celibato dos padres, negação do sacerdócio às mulheres, anticoncepcionais e aborto.
Essa atitude de protesto poderá ser manifestada durante a missa que o Papa vai celebrar amanhã, em Sankt Poelten (80 km a oeste de Viena), cujo bispo, Kurt Krenn, é considerado um dos mais conservadores do país. Krenn sempre defendeu o cardeal Groer e destituiu seu acusador beneditino, padre Udo Fischer.

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