O último bombardeamento do Iraque é mais uma demonstração de que a guerra não resolve os problemas, mas os complica, segundo o papa João Paulo II, que lamentou que ‘‘são as populações civis a suportar as dramáticas consequências’’. O pontífice voltou a tocar no assunto ontem durante seu discurso ao corpo diplomático credenciado junto à Santa Sé e sugeriu que seja o diálogo e a preocupação pelo bem das pessoas, além do respeito pela ordem internacional, a conduzir a solução de conflitos.
Em seu longo discurso pronunciado em francês na cerimônia presenciada pelos representantes de 171 países na Sala Regia, um dos ambientes de maior prestígio do Vaticano, o Santo Padre analisou, como faz todos os anos, as principais questões internacionais. Expressou satisfação e definiu como motivos de alegria para o novo ano os processos de paz em curso na Irlanda do Norte e na Espanha e o esforço feito para a união da população chinesa.
O papa citou como exemplo a ser seguido por outros países em conflito o acordo entre Equador e Peru, assinado em Brasília em outubro passado. ‘‘Graças à comunidade internacional e aos países garantes, dois povos irmãos tiveram coragem de renunciar à violência e resolver suas controvérsias pacificamente’’, disse o papa.
Quanto à Europa, a introdução da moeda única européia foi definida como algo positivo pelo Santo Padre, que também identifica aspectos negativos como o aumento da pobreza e as desigualdades sociais, além da tendência a reduzir o papel da igreja apenas às questões religiosas.
‘‘Uma falsa concepção do princípio de separação entre Estado e igrejas tende a confinar estas últimas apenas no âmbito cultural, aceitando com dificuldade a palavra pública da parte delas’’, lamentou-se.
Entre as maiores preocupações de João Paulo II está a África. ‘‘Dos 53 países que compõem o continente, 17 vivem conflitos militares internos ou entre Estados’’, denunciou o Santo Padre, afirmando que as notícias que recebe da África aumentam sua convicção de que a paz é a primeira condição dos direitos do homem. ‘‘A todas essas populações que me pedem ajuda quero dizer que estou a seu lado. Saibam que a Santa Sé se esforça para que seu sofrimento seja aliviado.’’
Outro ponto crítico, segundo o pontífice, continua sendo a região dos Bálcãs, com a Bósnia, onde ‘‘não se pode falar em normalização’’ e o Kosovo. ‘‘Muitos países da Europa central e oriental são vítimas de instabilidade política e social e não conseguem viver uma economia de mercado que ofereça a cada um sua legítima parte de bem-estar e crescimento’’, disse.
O ‘‘percurso acidentado’’ do processo de paz no Oriente Médio e o problema do estatuto da cidade santa de Jerusalém - que interessa em modo particular à Santa Sé, são questões que devem ser enfrentadas com ‘‘senso de responsabilidade’’, disse o Santo Padre, afirmando que ‘‘se a guerra é contagiosa, a paz também pode sê-lo’’.

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