Papa comove a multidão de fiéis
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domingo, 27 de março de 2005
France Presse 
Cidade do Vaticano -Choro, tristeza e alegria foram os sentimentos despertados ontem por João Paulo II, cuja dramática aparição na janela de seu apartamento, no Vaticano, ao fim da missa de Páscoa, deixou atônitos os milhares de crentes que assistiam às suas vãs tentativas de falar.
''É como uma bênção, mesmo que não diga nada'', disse, emocionada, Perrine Evain, uma voluntária italiana de 22 anos, que não conseguia conter as lágrimas após a silenciosa aparição de quase quinze minutos do Pontífice na janela de seu quarto, que dá para a praça de São Pedro.
''Não, não é possível. O pobre não consegue falar'', clamou, comovida, a peruana María Romero, enquanto o Papa tentava, com grande esforço, pronunciar em latim a bênção nos microfones instalados em frente ao seu atril. O único som que se ouvia era sua respiração ofegante.
Os telões instalados na praça transmitiam as imagens de um Pontífice abatido, que tentava aspirar o ar para fazer vibrar as cordas vocais, depois da traqueostomia à qual foi submetido em 24 de fevereiro, devido a graves problemas respiratórios.
''É uma imagem muito eloquente. Nos fala de sofrimento. Seu silêncio é um sinal de esperança'', afirmou o religioso brasileiro Carlos Nogueira, que chegou de manhã cedo à praça para assistir à cerimônia.
A demonstração pública concreta de que suas condições de saúde são delicadas alimentaram os sentimentos de que o mal de Parkinson que o afeta há vários anos avança implacavelmente.
''Estou transtornado. Ele sofre e, no entanto, é tão forte'', comentou Matthew Pandolfo, estudante de teologia americano. ''Me parece ter ouvido que disse em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo'', acrescentou o aspirante a sacerdote, que se surpreendeu em ser o único a ouvir estas palavras.
''Ele cumpre sua missão por nós, não por ele. Isto significa que quando se tem fé e esperança, se pode continuar'', concluiu.
Para muitos, o fato de ter podido acompanhar com a cabeça e os olhos a leitura da mensagem pascal, feita durante sua aparição pelo cardeal Angelo Sodano, é uma confirmação de que está mentalmente lúcido.
''É um apóstolo do sofrimento e da esperança. Os momentos que acabamos de viver hoje foram de extraordinária intensidade e emoção'', disse o prefeito da capital, Walter Veltroni.
Apesar dos aplausos e cantos das 70.000 pessoas presentes, a preocupação tomou conta da praça e as câmeras da televisão pública mostravam homens e mulheres tristes, alguns com lenços nos olhos.
Vários presentes se perguntavam se o Papa, que fará 85 anos em maio, poderá voltar a falar, já que está há duas semanas sem pronunciar qualquer palavra em público e não foram publicados novos boletins médicos sobre a evolução de sua doença.
''Demonstra uma vez mais que tem uma grande vontade e que sofre muito'', afirmou o doutor Corrado Manni, seu anestesista em seis ocasiões.
''É difícil fazer previsões para o futuro. Tudo está nas mãos da providência divina, como costuma dizer o próprio Papa'', comentou o especialista em sua residência, onde acompanhou a cerimônia pela televisão.


