Kawkareik, Mianmar - Em sua modesta igreja rural, com 16 fiéis, o padre William Hla Myint Oo se sente muitas vezes um pouco "sozinho" e vê a primeira visita de um papa a Mianmar, que começará na segunda-feira (27), como uma verdadeira fonte de consolo. O pontífice argentino começa na semana que vem uma viagem delicada a Mianmar e Bangladesh, dois países asiáticos onde os católicos são minoria.

Fiéis começam a chegar a Mianmar, onde outdoor anuncia vinda do papa, na próxima segunda-feira
Fiéis começam a chegar a Mianmar, onde outdoor anuncia vinda do papa, na próxima segunda-feira | Foto: Ye Aung Thu/AFP



A igreja de Kawkareik (leste), na fronteira de Mianmar com a Tailândia, conta com três famílias e vários voluntários. Todos eles irão na quarta-feira a Rangum, capital econômica, para assistir a multitudinária missa que Francisco presidirá para 200 mil pessoas.

Em Mianmar, mais de 90% dos habitantes é budista e os católicos somam 700 mil pessoas - 1% da população. "O papa vir nos ver, que somos uma minoria, nos dá muita força", assegurou o padre William. Nos arredores do pequeno povoado de Kawkareik, a predominância dos budistas é evidente. São poucas as montanhas onde não se vê um pagode (templo que alguns povos asiáticos destinam ao culto).

Com a abertura do país em 2011, após décadas de isolamento sob a junta militar, Mianmar viveu uma retirada das restrições religiosas e, ao mesmo tempo, um aumento das tensões interconfessionais. Estas tensões afetaram sobretudo a minoria muçulmana, que precisamente será um tema primordial da viagem do pontífice. O papa defendeu em inúmeras ocasiões os rohingyas, os quais chamou de "irmãos", e com quem se reunirá na sexta-feira (1/12) durante sua visita a Bangladesh.

Esta minoria muçulmana tem sido vítima nos últimos meses do que a ONU qualificou de "limpeza étnica", acusação que a opinião pública birmanesa, marcada pelo nacionalismo e pelo racismo antimuçulmano, rechaçou. Mais de 600 mil rohingyas encontraram refúgio em Bangladesh desde o fim de agosto, em um fuga da campanha de repressão do Exército birmanês.

Mas para o padre William e seus seguidores, nenhum tema da atualidade poderá manchar seu encontro com o papa Francisco. "Nenhum dos meus antepassados viveu algo assim", conta Maria Maung Lone, uma fiel de 73 anos que fica com o rosto iluminado ao pensar no papa. "Somos muito sortudos."

HISTÓRICO

O catolicismo se assentou em Mianmar no século XVI por meio dos comerciantes portugueses estabelecidos no estado indiano de Goa. Os primeiros missionários enfrentaram a desconfiança dos habitantes locais antes de finalmente encontrarem seu espaço. Em geral os católicos tinham boas relações com seus vizinhos budistas, segundo o padre Soe Naing, porta-voz da Igreja Católica em Mianmar. No entanto, isto mudou após a rebelião de 1988 contra a junta militar birmanesa, provocando um endurecimento do regime. "De repente fomos discriminados", explicou o religioso. "Os cristãos que trabalhavam para o governo não foram promovidos e foi impossível construir novas igrejas".

Mas com a autodissolução da junta, tudo ficou mais fácil. Em 2014, o país comemorou seu primeiro santo: o Vaticano canonizou Isidoro Ngei Ko Lat, que foi assassinado na fronteira leste do país em 1950. Em Mianmar, a morte deste jovem catequista, há mais de 60 anos, quase havia sido esquecida após décadas de repressão. Em 2015, Mianmar acolheu seu primeiro cardeal. Também neste ano, a chegada do governo civil dirigido por Aung San Suu Kyi permitiu, em maio, o estabelecimento de relações diplomáticas com o Vaticano.

O papa, que também se encontrará com o chefe do Exército durante sua visita a Mianmar, "não poderá evitar tratar da crise dos rohingyas", segundo o analista Richard Horsey. "Mas deve ser igualmente consciente de que a intervenção de um líder cristão é mais suscetível de provocar tensões do que impulsionar a compreensão interconfessional", assegurou. Para os católicos de Mianmar, uma intervenção polêmica do papa poderia colocá-los na mira dos budistas extremistas.

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