Pandemia avança devagar na África, diz OMS
Previsão de médicos e autoridades do continente é que o cenário deve piorar em breve
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sexta-feira, 20 de março de 2020
Previsão de médicos e autoridades do continente é que o cenário deve piorar em breve
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São Paulo - Com o número comparativamente modesto de 798 casos confirmados de coronavírus até a noite desta quinta (19), ou irrisórios 0,33% do total mundial, a África tem passado a impressão de que foi milagrosamente poupada do pior da pandemia. Nada mais falso, como alertou nesta quinta o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Ghebreyesus.

"A África, meu continente, precisa acordar", disse ele, numa entrevista coletiva em Genebra. "É preciso evitar grandes concentrações e fazer todo o possível para cortar [a pandemia] pela raiz, esperando que o pior pode acontecer."
A previsão de médicos e autoridades locais é que o cenário deve piorar em breve. Por enquanto, a epidemia atingiu 35 dos 54 países, além de duas regiões administrativas da França na costa africana.
Apesar de a proporção de casos ser bem menor do que a fatia africana na população mundial, que é de cerca de 16%, o peso relativo dos números do continente vem crescendo lentamente. No início da semana, eram cerca de 0,2% os casos africanos no cômputo global.
"Estamos no início da curva, sob muita pressão pelo que virá em breve", declarou Adriano Duse, chefe do Departamento de Microbiologia e Doenças Infecciosas da Universidade Witwatersrand, uma das mais importantes da África do Sul.
"Estamos trabalhando 24 horas por dia, sem direito a descanso", disse ele, membro da força-tarefa médica montada pelo governo sul-africano para lidar com a doença.
A lenta marcha das estatísticas na África pode ter sido afetada por problemas de detecção do vírus pelos deficientes sistemas de saúde locais. Mas é resultado sobretudo da posição periférica do continente nas cadeias globais, disse Elizabeth Sidiropoulos, diretora do Instituto Sul-Africano de Relações Internacionais, um dos principais think tanks do continente. "A integração da África com o resto do mundo é assimétrica", afirma Sidiropoulos.
Ligações aéreas do continente com outras partes do mundo são menores, assim como o intercâmbio de pessoas e mercadorias. Além disso, o movimento mais frequente é de africanos saindo do continente, como mostram as ondas de imigrantes para a costa mediterrânea, e não o inverso, de pessoas que poderiam chegar trazendo o vírus.
Mas menos ligações não significam que elas sejam inexistentes, alertou a própria OMS. Hoje há enorme volume de investimentos da China, epicentro da pandemia, na África. "Sistemas de saúde frágeis e ligações entre a China e a África significam que a ameaça representada por esse novo vírus é considerável", afirmou a organização em comunicado, no início do mês.
Não por acaso, os países mais afetados são os que têm maiores conexões com o resto do mundo. O líder é o Egito, com 256 casos confirmados, seguido por África do Sul (150) e Argélia (87). Já são 20 mortes no continente todo.


