Como se previa nas últimas horas, o poderoso drama ''Das Weisse Band'' (literalmente, A Faixa Branca), dirigido por Michael Hanecke, ganhou ontem a Palma de Ouro do 62º Festival de Cannes. A escolha de melhor filme para o sombrio drama sobre como a repressão pode gerar o mal foi bem recebida, como também o Grand Prix (uma espécie de segundo lugar) dado a ''Um Profeta'', de Jacques Audiard, na verdade o trabalho mais bem acabado desta mostra. Muitos preferiam essa fórmula invertida. E muitos ficaram desapontados pela não premiação dos filmes de Jane Campion e Pedro Almodóvar.
O Prêmio Especial do Júri foi dividido entre ''Fish Tank'', da inglesa Andrea Arnold, e ''Thrist/Sede'', do coreano Park Chan-Wook
Na Sala Debussy, lotada de jornalistas que acompanhavam a transmissão da gala que acontecia ao lado no Grand Theatre Lumiére, o anuncio de melhor direção e roteiro provocou uma sinfonia de vaias. O filipino Brillante Mendoza (''Kinatay''), que se tornou darling exótico de Cannes (ano passado também concorreu), pode ser um aplicado aprendiz, mas sair daqui como melhor diretor é no mínimo um insulto, entre outros, a Almodóvar (mesmo que seu filme não esteja entre seus melhores), a Ken Loach e até a Tarantino e suas fórmulas bem humoradas mas repetitivas.
O mesmo se aplica ao hiperbólico roteiro do chinês Feng Mei, escrito para ''Spring Fever''. Havia outros, reconhecidamente melhores. Já a escolha de melhor interprete feminina, a francesa Charlotte Gainsbourg, não teve objeções, muito pelo tour de force da atriz trabalhando no limite um material árido como é o filme ''Anticristo'', de Lars von Trier. Unanimidade mesmo foi o prêmio ao melhor ator, Christoph Waltz, que segura com talento muito bem matizado boa parte do desigual filme de Tarantino, ''Inglorius Basterds''.
O júri resolveu criar um Prix Exceptionel du Festival de Cannes para o mestre Alain Resnais, de 86 anos, que concorria com a jovial, travessa e original comédia ''Les Herbes Folles''. A justificativa foi ''o conjunto de sua carreira e sua contribuição à história do cinema''. Embora emotivo, o momento teve certo sabor de consolação, ou de desculpa mesmo dos jurados por não terem lá entendido muito bem a saborosa brincadeira existencial do diretor de ''Medos Privados em Lugares Públicos''.
A cerimônia de encerramento de Cannes é sempre muito desglamurizada em função do tempo curto imposto pela tevê e pelo perfil mais cabeça do festival, mas o momento bem poderia ganhar um roteiro de palco pouco coisa mais profissional. O improviso e a falta de tempero são sempre uma constante nesta noite final de Cannes, mas falta aqui - justiça seja feita - talento e jogo de cintura do Oscar.

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