São Paulo Milhares de animais são sacrificados, na Ásia e agora na Europa Oriental, numa tentativa de conter o surto de gripe aviária. O esforço, até este momento, mostra-se inócuo. Novos casos surgem a cada dia e o problema não é mais localizado: 11 nações já têm registros confirmados de contaminação. Outros aguardam os resultados dos testes.
Nos demais continentes, países começam a se armar para enfrentar uma difusão mundial da doença. A União Européia, que vê a gripe aviária bater em suas portas, proibiu a exposição de aves em eventos e ampliou a zona de embargo à importação. Na África, Etiópia, Quênia, Ruanda, Tanzânia e Uganda promovem campanhas de conscientização.
Na América Latina, seis países andinos se reuniram na sexta-feira para traçar planos comuns de contingência. Técnicos americanos foram ao Vietnã para buscar dados sobre a doença.
No Brasil, os Ministérios da Agricultura e da Saúde e setor produtivo se reúnem na terça-feira (dia 25) para discutir uma estratégia de prevenção. A Associação Brasileira de Avicultura (ABA) estima que R$ 50 milhões são necessários para que a doença não atinja o País e, caso isso ocorra, não comprometa todo o plantel.
Entre as medidas, está o treinamento de pessoal, o monitoramento de aves migratórias, a restrição do trânsito de animais vivos de um Estado para outro e a fiscalização de importações. ''Num cenário pessimista, um frango caipira contaminado pode comprometer toda a produção nacional, com prejuízos fantásticos'', estima o vice-presidente da ABA, Ariel Mendes. Em 2004, o Brasil exportou 2,45 milhões de toneladas de carne de frango; a perspectiva para 2005 é de 3 milhões. ''Num cenário otimista, a contaminação é rapidamente diagnosticada e, em seis meses, o País volta a exportar.''
Perigos O trânsito de aves entre os hemisférios, em busca de temperaturas amenas, é um dos caminhos possíveis para que o vírus da gripe aviária se espalhe. Por aqui passam duas rotas migratórias, que partem da América do Norte e seguem até o sul em oito dias, uma ave sai do Canadá e chega ao Rio Grande do Norte, por exemplo. Um dos trajetos é costeiro, mas o outro passa pelo interior do continente, perto de regiões que concentram produção avícola.
A maioria das espécies que migram é aquática, como patos e marrecos, animais que podem carregar o vírus sem adoecer. O problema é se elas tiverem contato com aves selvagens nativas ou domesticadas, passando a doença adiante. O controle das aves migratórias que passam pelo território brasileiro é feito desde 1984. ''Há poucos estudos que comprovam a transmissão de um influenza perigoso entre espécies migratórias e nativas. Mas tudo é possível'', diz o analista ambiental Elivan Arantes de Souza, do Ibama.
Outra forma de contaminação é a importação de animais e a vinda de pessoas doentes. Além disso, o vírus consegue sobreviver por cerca de três dias em meios físicos como um sapato. Mendes recomenda então uma quarentena dos visitantes.
O vírus que tem assustado a Ásia e a Europa, o H5N1, é uma variante do influenza, que causa a gripe comum. Existem diferentes tipos, cujo grau de perigo varia de acordo com a capacidade de atacar mais ou menos células do organismo só em aves, há 15 cepas identificadas.
O H5N1 é um vírus de letalidade máxima para aves domesticadas: se chega a uma granja, todos os animais morrem em 20 dias após a contaminação. Em humanos, o quadro não é muito melhor. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais da metade dos infectados morreu.
Todas as vítimas humanas se infectaram pelo contato com aves doentes, com suas fezes ou sangue. O consumo da carne, desde que bem assada, não transmite o vírus. Só que diversos países asiáticos não têm regras rígidas de higiene e manutenção de suas aves, que são muitas: no Vietnã, calcula-se que existam 7,8 milhões de propriedades rurais com até dez galinhas ou porcos. Em mercados livres, as aves são comercializadas e abatidas. ''O ideal seria que o H5N1 tivesse sido erradicado rapidamente, mas as condições em que ele surgiu foram desfavoráveis'', explica a pesquisadora Liana Brentano, da Embrapa.
Um passo crucial para que a gripe aviária se transforme em pandemia, atingindo aves e pessoas aos milhares, é a mutação do H5N1 em um tipo transmissível de pessoa para pessoa. Não é certo que isso ocorra, porém é possível: um tipo de influenza pode se combinar a outro, humano, ou mudar para sobreviver ao ambiente, como teria ocorrido com o vírus que provocou a epidemia de gripe espanhola, em 1918.
É exatamente a incerteza do que pode aparecer que atrapalha o desenvolvimento de tratamentos. ''A vacina existente hoje pode fazer com que o vírus sofra uma mutação e surjam novas variações. A grande preocupação é essa: será que o vírus vai mudar?'', diz Brentano. (Colaborou Renata Gallo)

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