Kobe, Japão - Terremoto é algo que faz parte da vida do Japão. No entanto, mais uma vez, o país foi pego de surpresa. Eram perto de 15 horas (horário local) quando os trens começaram a atrasar e os luminosos passaram a informar a existência de um tremor de terras ao Norte do país, ainda sem dar a exata dimensão do abalo. Os japoneses, já acostumados a consultar notícias e acessar a internet pelos celulares buscavam mais informações. Minuto a minuto a tragédia foi se delineando.
Em meia hora, chegou a informação de que se trata do terremoto mais forte do país. E que havia desencadeado uma onda de tsunamis. As imagens do fogo em Tóquio, e de carros, aviões e barcos sendo arrastados ao Norte começaram a chegar aos celulares. O sistema de de trens-bala parou ao norte de Osaka.
No Sul, onde estou, foi acionado estado de alerta em razão dos eventuais tsunamis, que ninguém sabia informar a probabilidade de ocorrência ou sua intensidade. Nas estações de metrôs, uma edição extra do Asahi Shimbum, o maior jornal do país, foi distribuída.
A impressão que fiquei, a aproximadamente 900 quilômetros do epicentro, é de que os japoneses confiam em seus sistemas preventivos. Pela televisão, informes com tradução em inglês e português informavam quais áreas poderiam ser atingidas pelos tsunamis. Alto-falantes nas ruas pediam para as pessoas evacuarem as regiões costeiras e manterem-se nos andares mais altos dos edifícios. Ao chegar ao prédio da Japan International Cooperation Agency (Jica) - instituição governamental japonesa que coordena o curso do qual estou participando - fui recebido com alívio.
De imediato, foi solicitado aos intercambistas que não deixassem o prédio e que qualquer novidade seria informada diretamente em nossos quartos. Estou hospedado em Kobe, no Mar Interno de Seto, uma área protegida por uma grande ilha ao longo de sua costa. Trata-se, por isso, de uma das regiões menos expostas aos riscos do mar. Porém, é uma cidade traumatizada por terremotos - em 1995, um grande abalo de 7,7 na escala Richter deixou mais de 5 mil mortos.
Atualmente, é difícil perceber os impactos do desastre no dia a dia da cidade. Os prédios foram todos reconstruídos de acordo com as normas mais rígidas de segurança, inclusive para resistir a terremotos.
De minha janela, observo o Porto de Kobe, um dos mais movimentados do mundo. Durante a noite, é possível perceber que imensos guindastes são trazidos para perto da costa.
Para um estrangeiro, sem qualquer raiz familiar japonesa, chama a atenção a serenidade com que o país enfrenta as dificuldades. Não há pânico nem revolta. Os japoneses conhecem os riscos da natureza e os respeitam. Há uma expressão por aqui chamada ''vítima consciente''. Isso significa saber o que fazer para reduzir os danos quando os desastres da natureza atingem chegam ao país. Dentro das possibilidades humanas, é um sistema que funciona de forma exemplar.
Amanhece em Kobe. O mar permanece calmo, mas o estágio de alerta é mantido. Pelo menos a região em que estou, desta vez - e até agora, conseguiu escapar dos efeitos do terremoto.
* O jornalista viajou ao Japão ao convite da Japan International Cooperation Agency (Jica)

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