Ariel Palacios
Agência Estado
De Buenos Aires
‘‘Recebo o país em uma situação pior, mais grave do que a anunciada.’’ Com estas palavras, Fernando de la Rúa sintetizou em uma só frase seu discurso ao jurar como novo presidente da Argentina no Congresso Nacional. Diante dos representantes dos governos estrangeiros e dos parlamentares argentinos, o quadragésimo segundo presidente do país disparou uma saraivada de críticas aos dez anos e meio de governo do presidente peronista Carlos Menem. ‘‘Os argentinos votaram no dia 24 de outubro com vontade de terminar com a corrupção. Eles querem um poder que sirva às pessoas, e não que sirva aos interesses pessoais’’, disse, aludindo ao ostensivo proveito particular que Menem desfrutou do cargo.
De la Rúa disse que ‘‘era preciso que o povo soubesse a verdade’’, e desenrolou a lista de falhas da administração Menem, explicando que foi um governo que desperdiçou oportunidades históricas: ‘‘privatizaram as empresas públicas e tiveram os benefícios do início da globalização. O governo anterior deveria ter deixado o país com as finanças em ordem, e no entanto, não é assim. Há um enorme déficit orçamentário, afastado da lei de responsabilidade fiscal’’.
Culpando o partido peronista, que após uma década no poder, agora passou à oposição, o novo presidente lamentou que esteja começando o governo sem ter podido aprovar o orçamento do ano 2000. Continuando suas críticas, De la Rúa também afirmou que Menem havia sido indiferente com as províncias, que estavam altamente endividadas. De la Rúa definiu o sistema previdenciário como ‘‘em ruínas’’.
Rúa lamentou ter que aplicar um pacote tributário, mas argumentou que será ‘‘para aqueles que têm mais, e não para os que têm menos’’. Disse que não queria mais impostos, mas que eram necessários para acabar com o déficit que está herdando. Mais uma vez, De la Rúa disparou sobre Menem: ‘‘este governo deveria ter resolvido isso, para não entregar o país nesta situação....
Após o juramento no Congresso, Rúa subiu a um cadillac preto conversível, e acompanhado de sua esposa, Inés Pertiné, foi pela histórica Avenida de Mayo até a Casa Rosada, a sede do governo. O cortejo presidencial foi assistido por um público muito menor do que o esperado: ao longo das 18 quadras havia vários pontos onde inexistiam curiosos para ver o novo presidente passar.
Na Casa Rosada, Menem esperava seu sucessor, a contragosto, para se desfazer de seus símbolos mais apreciados: a faixa e o bastão presidenciais.
No mesmo lugar, o Salão Branco da Casa Rosada, o presidente Fernando Henrique Cardoso sentou-se entre o presidente do Chile, Eduardo Frei, e Liliana Chienajowksy, esposa do vice-presidente Carlos ‘‘Cacho’’ Álvarez, que possui um trágico passado: foi prisioneira política durante a ditadura militar, quando foi violentamente torturada. No mesmo salão estavam o ex-presidente Raúl Alfonsín e o ex-presidente provisório Italo Lúder.
Com cara resignada, Menem colocou a faixa em De la Rúa, e passou-lhe o bastão presidencial. Terminada a cerimônia, Menem desceu as escadarias laterais da Casa Rosada, onde o esperava um peculiar trio: o cinquentão ator de chanchadas Vícto Bo, o ex-cabeleireiro presidencial, Tony Cuozzo, e Armando Gostanián, presidente da Casa da Moeda, que distribuiu dinheiro de brincadeira com a efígie de Menem. Alguns ministros de Menem foram vaiados pelo público.
Enquanto Menem partia, De la Rúa ia até o histórico balcão da Casa Rosada, para saudar o exíguo público que estava ali para ouvi-lo. Ali, De la Rúa agradeceu, e disse que esperava ‘‘cumprir as esperanças do povo’’.
Pouco depois, no Palácio San Martín, sede da chancelaria, De la Rúa recebeu os chefes de Estado e governo convidados. O primeiro em cumprimentá-lo foi o presidente Fernando Henrique Cardoso, acompanhado da primeira-dama, Ruth Cardoso. De la Rúa também foi saudado pelo chanceler Luiz Felipe Lampreia, o embaixador brasileiro na Argentina, Sebastião do Rego Barros, e suas respectivas esposas. À noite, estava programado que De la Rúa receberia os chefes de Estado para um jantar privado em seu apartamento da Rua Montevidéu.

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