O Exército paraguaio está profundamente dividido. A condenação do general Lino Oviedo a dez anos de prisão, por um tribunal militar extraordinário criado pelo presidente Juan Carlos Wasmosy, acirrou ainda mais a polarização entre a cúpula e a base dos oficiais. Um coronel do Exército, que falou sob a condição de permanecer no anonimato, disse que o boato que corre entre os oficiais é que Wasmosy ‘‘pagou milhões’’ pela condenação de Oviedo.
Essas especulações aprofundam o ressentimento na base da pirâmide do Exército, onde o ex-comandante Oviedo desfruta de muita simpatia. O maior ponto de tensão é a diferença brutal de situação econômica. A diferença maior está no padrão de vida, derivado das oportunidades de negócios. Uma lei da época do ditador Alfredo Stroessner permite aos militares paraguaios atuar na iniciativa privada. E eles têm atuado ferozmente.
Fontes civis e militares disseram à AE que a corrupção grassa no alto escalão das Forças Armadas. Isso pode ser verdadeiro ou falso, mas, concretamente, os oficiais que ocupam postos de coronel para baixo se ressentem do contraste visível no padrão de vida deles e dos generais, que não são poucos.
É bem verdade que Oviedo não é uma exceção. Também acumulou fortuna inteiramente incompatível com seu soldo, graças a vantajosos contratos em Itaipu e noutras áreas, inclusive em sociedade com seu ex-amigo Wasmosy. Mas isso não tem perturbado sua empatia com os jovens oficiais. As razões para essa simpatia ao ex-comandante são as mesmas que explicam o carisma de Oviedo perante a população. O general distribui promessas assistencialistas de toda sorte e faz pregações nacionalistas.
A suposta tentativa de golpe liderada por Oviedo foi seguida do expurgo de cerca de 200 oficiais. De coronel para cima, os militares estão com o presidente Wasmosy. De que a cúpula esteja contra Oviedo, não há dúvida. Entretanto, diz o sociólogo Marcial Riquelme, professor da Universidade do Kansas e um dos maiores especialistas paraguaios em assuntos militares, ‘‘não se sabe se oficiais de alta patente são a favor da democracia ou apenas contra o caudilho militar Oviedo’’.
Ser contra o caudilho militar, diz Riquelme, que está realizando uma pesquisa com os oficiais paraguaios, ‘‘é condição necessária, mas não suficiente, para jogar segundo as regras democráticas’’. Uma inquietação frequente entre os observadores é a seguinte: que acontecerá, se Oviedo vencer a batalha na Corte Suprema e se eleger presidente? As Forças Armadas continuarão contra ele?
O mais grave é que essa pergunta se aplica também ao caso de a aliança oposicionista vencer as eleições - o que pode acontecer, segundo as pesquisas, se os colorados substituírem Oviedo por outro candidato. Essas incertezas se devem a um velho problema das Forças Armadas paraguaias: seu envolvimento crônico na política. ‘‘Não há fronteira entre civil e militar no Paraguai’’, diz Riquelme.
Até a Constituição de 1992, para ser militar, policial ou funcionário público civil, era obrigatória a filiação ao Partido Colorado. No caso dos militares, o pai também tinha de ser colorado. A Constituição proibiu a filiação partidária dos militares, mas, na regulamentação, por uma lei de 1994, essa filiação ficou apenas ‘‘suspensa’’. De qualquer forma, um vínculo como esse não se desfaz da noite para o dia. O grosso dos militares continua formado de colorados.
Além do envolvimento político, Riquelme aponta uma segunda particularidade paraguaia que dificulta a transição democrática: a abertura começou com um golpe militar, que derrubou Stroessner, em 1989. ‘‘Foi uma abertura tutelada.’ Na opinião do sociólogo, a transição só começou efetivamente em abril de 1996, com a destituição de Oviedo do comando do Exército e os expurgos dos oficiais leais a ele.
Riquelme, autor de vários livros sobre as Forças Armadas e sobre o processo político paraguaio, está desanimado. ‘‘Se, antes, a transição estava emperrada, agora está regredindo’’, observa. ‘‘Não saber se vai haver eleições é um retrocesso: em 1993, pelo menos se sabia que haveria as eleições no dia 10 de maio.’

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