Os mutantes
Morreu Mario Puzzo, o autor de O Chefão, e logo em seguida um bando, realmente um grande bando, entrou na agência central do Banespa, no centro velho da capital paulista, e ficou lá dentro pelo menos quatro horas, tempo gasto para abrir um grande cofre - com uso de furadeira e várias brocas - e dali subtrair a quantia de R$ 32,5 milhões, o maior roubo dos últimos anos no País. Os ladrões não descuidaram de levar sequer 30 fitas de vídeo, onde são gravadas as imagens de quem entra e de quem sai do estabelecimento bancário. O local do roubo foi o subsolo de um prédio no centro velho da cidade.
As cenas foram dignas de um roteiro de Mário Puzzo e seus personagens mafiosos. No caso concreto o Don Corleone tupiniquim soube fazer um planejamento preciso, contou com informações corretas fornecidas por alguém que só pode ser de dentro do próprio banco, e o desenrolar da ação contou com uma inteligência incomum. As coisas acontecem, nem sempre as pessoas prestam muita atenção, mas de alguns anos para cá surgiram ladrões especialistas em cofres de banco, inclusive os de aluguel, aqueles onde as pessoas guardam jóias, dólares, documentos sem precisar declarar o conteúdo. A amante do ex-governador paulista Ademar de Barros, Ana Capriglioni, tinha um cofre desses, em sua mansão no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, onde o grupo do ex-capitão Carlos Lamarca, enterrado na luta armada até o pescoço, subtraiu a bagatela de US$ 2,5 milhões.
Na virada do milênio, começamos a perceber que até mesmo os tabaréus precisam entender, e bem depressa, que para enfrentar esse tipo de criminoso de frente é preciso saber usar a cabeça e não apenas a força bruta. Em lugar de pancadas, neurônios. Talvez precisemos também já de academias para exercitar o cérebro e não apenas fazer crescer os bíceps. Viaturas policiais discretas, não em cores convencionais, mas que possam circular de maneira dissimulada. Policiais por vezes mais discretos ainda, sem usar bonés e coletes e tão pouco armas e algemas aparecendo. Usar a cabeça é isto, aliando-se a esta poderosa circunstância a capacidade técnica de investigar, descobrir provas e rumar para cima de alvos pré-definidos, e não aleatórios.
Nos anos 60, houve um assalto de valores recordes em São Paulo. Ficou conhecido como o assalto dos 500 milhões, o valor da época. Não havia pista nenhuma. O delegado Coriolano Nogueira Cobra, um verdadeiro sherclock, mandou fazer um levantamento de todas as multas contra veículos nas imediações. Acharam que ele era lunático. Cobra acertou na mosca: um carro alugado, estacionado irregularmente nas proximidades do local do roubo, foi a chave do mistério que permitiu chegar aos autores - um grupo de gregos - e a recuperação plena da fortuna.
Os policiais paulistas precisarão utilizar a cabeça para chegar aos autores do roubo do Banespa. Que serve como amostra de um novo tipo de engajados nos crimes contra o patrimônio - aliás, responsáveis pela maioria absoluta da população carcerária brasileira - e que constroem o espectro criminal dos dias atuais. É o caso dos veículos, roubados ou furtados, que passam às mãos dos ladrões, e que apenas no último mês de maio foram trinta mil (!) em todo o Brasil.
Os três primeiros colocados nesse ranking: São Paulo (20 mil carros), Rio de Janeiro (4 mil) e Minas Gerais (1.200). Menos mal para o Paraná, fora dos primeiros classificados e com os ladrões regionais preferindo os modelos mais antigos, como o Monza, o velho Passat e o Chevette. Da ladroagem paulista, apenas 46% dos carros foram recuperados.
Importante assinalar, ainda, que drogas e crimes organizados contra o patrimônio correm juntos. O fato foi constatado inúmeras vezes e agora apresenta motivo extra para preocupações: no Rio, informações oficiais dão conta de que ao longo deste 1999 trinta militares do Exército trocaram a caserna por ‘‘trabalho’’ melhor remunerado junto a traficantes. ‘‘Problema social’’, dizem os escapistas de plantão. Em resumo: a criminalidade, já triunfante, também é mutante. Tem evoluído muito, deixando para trás os concorrentes tidos como pés-de-chinelo. São esses mutantes que estão dando as cartas na forma mais organizada de crime. A ficção de Puzzo é realidade de hoje.

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