O melancólico cinquentenário da Otan será considerado sem entusiasmo, quase sem interesse pelos franceses. A maioria da opinião pública continua favorável aos ataques da Otan na Sérvia; porém evaporou o entusiasmo ingênuo e extasiado dos primeiros dias. Até mesmo os que continuam favoráveis à Otan perguntam se a questão não foi dirigida por uma mentalidade muito restrita.
Entre os intelectuais, nos primeiros momentos, uma falange maciça conduzida por Bernard-Henri Levy assumiu a bandeira de pregar a guerra. Porém, dia após dia, personalidades mais consideráveis do que Levy, ou Alain Finkelkraut, começaram a manifestar-se. No início Régis Debray. E agora um homem entre todos respeitado, o sociólogo Edgar Morin, rompeu o silêncio.
Na primeira página de ‘‘Le Monde’’ Morin foi fulminante. Seu artigo intitula-se ‘‘O desastre’’. Morin começa enumerando as besteiras cometidas pela Otan (guerra apenas aérea, etc.) e os efeitos de erros cometidos por ignorância: fortalecimento do tirano Milosevic, a tragédia na qual foi lançado um milhão de kosovares, o perigo do sismo alastrar-se aos países vizinhos, do Montenegro à Macedônia, sem falar da infeliz Albânia. ‘‘A guerra dos golpes sucessivos ampliou, acelerou e agravou o processo de limpeza étnica, tornando-o um esvaziamento sistemático’’, afirma Morin, para concluir: É o desastre!’’
Morin coloca os adversários lado a lado: ‘‘Milosevic é horrível, mas a Otan é estúpida e desumana’’. ‘‘Madness! Loucura! Loucura!... As tragédias de Shakespeare referiam-se aos reis. As tragédias modernas referem-se aos povos... Se os kosovares forem vencidos, dispersos, tornando-se emigrantes, deveríamos chorar, chorar de dor e de ódio contra as duas barbáries imbecis que continuam controlando o mundo’’.
A grande palavra de Edgar Morin não é a única. Dia após dia elevam-se, nos círculos intelectuais e políticos, os protestos quanto à maneira pela qual a França acata gentilmente as ordens da dupla Clinton-Blair. O primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, está preocupado, à medida que se forma uma oposição no seio de sua própria maioria de esquerda, de seu próprio governo. E, à direita, os que denunciam a empreitada norte-americana (ou seja, da Otan), tornam-se cada vez mais belicosos, particularmente entre os ‘‘gaullistas históricos’’ (e, portanto, passionalmente antiamericanos), tais como Charles Pasqua ou Philippe Seguin.
Um pensamento comum reúne a esquerda irredutível e a direita gaullista: os Estados Unidos não tinham que meter o bedelho nos Bálcãs. Enquanto que a guerra do Golfo de George Bush se explicava por motivos econômicos (petróleo), o Kosovo não tem nenhum interesse para os Estados Unidos. E então? Por que Washington lançou-se como um tigre sobre a Sérvia? A resposta seria a seguinte:
Os Estados Unidos não esqueceram a idéia anelada já antes por George Bush: tornar-se verdadeira potência única do mundo, regendo todas as nações! Sempre segundo os antiamericanos franceses da direita e da esquerda, esse processo já teria sido iniciado. Pelas finanças, comércio, capitais, universalismo e o FMI, intercalados, os EUA já conseguiram submeter a América Latina, a África e a Ásia, restando a Europa como único foco de resistência.
A aventura de Kosovo visaria, pois, reduzir esse bolsão de resistência constituído pela Europa contra a hegemonia absoluta da América. A Otan seria uma ‘‘cabeça de ponte’’ lançada pela potência americana na Europa, graças a Kosovo.
São essas as análises atuais, sobretudo depois da equipe da Otan ter chegado ao saldo do meio-fracasso. Não é certo que tais análises correspondam à verdade. Mas, pelo menos, o fato de se multiplicarem, constitui um elemento de reflexão novo, quanto às profundas transformações do fato geopolítico, que prefigura e favorece a aventura dos Bálcãs.

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