Os limites da estratégia de Clinton no escândalo
Arquivo FolhaClinton: afundando o icebergO surpreendente aumento da popularidade de Bill Clinton desde a revelação de suas ligações perigosas com uma jovem ex-estagiária da Casa Branca inspirou, finalmente, a primeira piada publicável do escândalo: se Clinton fosse o Titanic, o iceberg teria afundado. Embalados pela reação do público, que até agora evitou fazer um julgamento moral sobre seu líder, os assessores de Clinton conseguiram nos últimos dias mudar também os termos da discussão, transformando as táticas do promotor especial Kenneth Starr numa questão tão importante quanto a própria conduta do presidente.
Mas os próprios conselheiros de Clinton começam a manifestar dúvidas sobre a sustentabilidade da estratégia adotada pelo presidente - de negar que teve relações sexuais como Mônica Lewinksy ou a aconselhou a mentir a respeito num processo judicial - e criar dúvidas sobre os motivos dos acusadores, sem explicar suas relações com a jovem, que tinha 21 anos quando começou seu estágio na Casa Branca, em meados de 1995.
A primeira-dama Hillary Clinton, que comanda nos bastidores a contra-ofensiva para proteger o marido, previu ontem que o escândalo não desaparecerá mas se dissipará ao ponto de perder substância.
A julgar por entrevistas que alguns conselheiros de Clinton deram ao Washington Post, sob a condição de não serem identificados, a esperança de Hillary Clinton de que a controvérsia se torne irrelevante resume a estratégia de médio e longo prazo da Casa Branca diante do escândalo. Esses assessores disseram que o episódio, que continua a dominar as atenções em Washington, atingirá seu próximo ponto crítico quando Starr intimar Clinton a prestar seu depoimento sobre suas relações com Lewinsky, possivelmente ainda este mês.
Quando isso ocorrer, Clinton será forçado a lidar diretamente com a controvérsia, o que fez tudo para evitar até agora, e a atitude do público poderá mudar. Como lembrou ontem Michael Kelly, redator do National Journal e simpatizante das políticas de Clinton, o caso Lewinsky não envolve uma questão menor e pessoal sobre o que um indivíduo fez à portas fechadas em busca da felicidade. Ele tampouco diz respeito a dúvidas sobre a conduta dos promotores da equipe de Kenneth Starr. O que está em jogo é a maior, mais central e públicas das questões: trata-se de saber se nós exijimos que o presidente obedeça à lei, se nós aceitamos que ele minta para nós.
As várias afirmações e desmentidos que mantiveram o assunto nas primeiras páginas dos jornais nas últimas semanas têm sido alvos de críticas de diversas personalidades. Ontem, em Nova York, o presidente do grupo Time-Warner, Gerald Levin, disse que a cobertura do caso era uma mancha para o jornalismo do país. Todo o caso está obscurecido por dúvidas sobre quais são os fatos e quais são os rumores, declarou. A Time-Warner controla a rede de TV CNN e as revistas Time, People e Fortune, entre outros veículos.
Os efeitos do escândalo sobre a capacidade de Clinton de governar, os americanos começam a perceber. A imensa taxa de aprovação que ele vem recebendo em algumas das pesquisas de opinião de nada tem servido na condução das duas questões centrais de sua agenda política, no momento. Na frente interna, ela não está ajudando Clinton a obter apoio no Congresso para o projeto de lei de dotação de US$ 18 bilhões em contribuições dos Estados Unidos para o Fundo Monetário Internacional, a mais importante e urgente legislação que enviou ao Congresso este ano. O escândalo, por outro lado, tem demandado tempo que Clinton estaria normalmente investindo em outro temas prioritários, como as implicações de um ataque ao Iraque.





