Líbano Yussef Isma‹l, professor de um vilarejo do sul do Líbano, colocou sua família e seus pertences mais preciosos às pressas no carro e partiu para Tyr, localidade invadida por dezenas de milhares de desabrigados.
Para Yussef, o barulho das botas na fronteira israelense-libanesa faz lembrar um passado que todos os libaneses querem esquecer: a invasão do Líbano por Israel, no verão de 1982, que o Tsahal (Exército de Israel) arrastou até Beirute.
Ali Cheikh Hussein também fugiu de seu vilarejo e por pouco não teria conseguido. Os bombardeiros F-16 israelenses miraram Bint-Jbeil como alvo e, segundo o testemunho de um senhor, só deixaram para trás ''fumaça e fogo''.
''Nós pegamos a estrada e começamos a ouvir as explosões'', conta.
''Eles destruíram o vilarejo. Eu tenho certeza que um monte de gente ficou sob os escombros'', acrescentou o aposentado, que colocou sua família em segurança na casa dos amigos.
Agora que os soldados israelenses ocuparam vários pontos pertos da fronteira no sul do Líbano, após dez dias de ataques a posições do Hezbollah, Ali Hussein e os habitantes da região não têm dúvidas sobre as intenções do Estado de Israel.
''É como em 1982'', diz Yussef, que foi para casa de seus país em Tyr, uma cidade litorânea.
Em 6 de junho de 1982, os blindados israelenses invadiram a fronteira, abrindo uma das páginas mais negras da história do Líbano.
O objetivo do general Ariel Sharon, que comandava então a operação ''Paz na Galiléia'', era eliminar o que considerava uma ameaça da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), cujos combatentes estavam presentes em força no Líbano desde 1970. Mas ele queria também redesenhar o mapa político do Líbano, colocando no poder um governo amigo liderado por um chefe político cristão, Béchir Gemayel.
Vinte e quatro anos mais tarde, Israel afirma querer simplesmente eliminar o Hezbollah, que lança diariamente foguetes contra o norte de Israel. Assim, pretende mudar a situação política regional, ao lado dos Estados Unidos, enfraquecendo a Síria e o Irã, considerados como apoiadores do partido xiita.
''Que invadam'', desafia Mahmud Abu Zeid, que viveu a invasão de 1982. ''Na época nós tínhamos apenas algumas armas. Hoje, há uma verdadeira resistência'', afirma.
''Se os israelenses enviarem todo seu exército ao sul do Líbano, talvez consigam acabar com o Hezbollah'', acrescenta, confiando como muitos de seus concidadãos nas proezas dos combatentes xiitas.
Portando, Mahmud Abu Zeid não hesita em fazer a pergunta que não quer calar os libaneses, cujo país ficou sumido na anarquia e no terrorismo após o ataque israelense. ''E depois? O que vai acontecer? Nós teremos a Al-Qaeda ou alguma coisa pior?, questiona.
Em 1982, os israelenses derrotaram os combatentes palestinos no sul do país e ordenaram à OLP e seu chefe, Yasser Arafat, a deixar Beirute, sob escolta francesa, após um ataque brutal à capital libanesa. Quando os bombardeios e os combates terminaram, a operação ''Paz na Galiléia'' deixou um país em ruínas e mais de 20.000 mortos.
Mas, rapidamente, o projeto israelense no Líbano virou uma catástrofe: a ocupação militar radicalizou diversas comunidades, precipitou o desmoronamento do país fragilizado por anos de guerra civil, e deu origem ao Hezbollah: um movimento suficientemente poderoso para levar Israel a se retirar em 2000.
E Mahmud Abu Zeid, que nada esqueceu desta ação mortal adverte: ''Enquanto os israelenses não respeitarem os direitos dos árabes e considerarem nosso sangue como sem valor, as coisas só vão piorar para eles.''
Bombardeio - Aviões israelenses atingiram torres de telecomunicação no Líbano ontem, interrompendo a transmissão da principal rede de TV e cortando linhas telefônicas em algumas regiões. De acordo com o Ministério de Saúde Pública do Líbano, ao menos 360 pessoas já morreram e outras 1.350 ficaram feridas no país desde o início dos confrontos entre Israel e o Hizbollah. Em Israel 35 pessoas morreram.
Ainda ontem, unidades israelenses entraram na cidade cisjordaniana de Ramala, cercaram o quartel-general das forças de segurança palestina e impediram o acesso ao centro da cidade.

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