Orientais buscam felicidade interior
Colleen Barry
Associated Press
De Berlim
Tal euforia não poderia durar.
Jubilantes alemães dançaram sobre o Muro de Berlim. Guardas fronteiriços da Alemanha Oriental observavam perplexos milhares cruzarem a fronteira para experimentar liberdades há muito proibidas e riquezas numa noite memorável.
Alemães ocidentais colocavam dinheiro nas mãos de seus compatriotas há muito perdidos. Estranhos se abraçavam. Famílias eram reunidas.
Mas 10 anos depois da queda do Muro de Berlim, as histórias são de multidões de alemães orientais confrontando a traição de seu passado e olhando para o futuro com desapontamento.
Arquivos compilados pela incansável máquina da polícia secreta Stasi revelaram que muitas das pessoas que eles mais confiavam mesmo suas esposas os espionaram. E dinheiro que uma vez estranhos fizeram chover sobre eles tem se tornado uma fonte de ressentimento entre alemães ocidentais, que pagam a conta da reunificação.
O júbilo de 1989 há muito deu passagem para o choque cultural de 17 milhões de alemães orientais tentando criar uma nova identidade numa nação de 80 milhões de habitantes onde toda esfera de influência a mídia, a economia, a política é dominada pelos ocidentais.
A ilusão pós-unificação de que todos os alemães eram os mesmos começou a se dissipar assim que as duas Alemanhas começaram com o processo de se fundir numa só.
Desentendimentos surgiram das histórias muito diferentes, e de coisas tão pequenas como o hábito dos alemães orientais de apertar as mãos de colegas de trabalho, disse Hendrik Berth, um psicólogo em Dresden. O choque cultural se aprofundou à medida que os dois lados concentraram-se em suas percebidas diferenças.
Acho que muitos alemães ocidentais disseram: Nós estamos unificados, eles deveriam se encaixar conosco e é tudo, afirmou Berth. Mas você não pode dizer, como em 3 de outubro de 1990, que o passado está encerrado, que agora somos diferentes do que éramos.
Na verdade, a cobertura da mídia sobre o estado das relações interalemães 10 anos depois do fim da Alemanha Oriental se concentra nas persistentes diferenças. Na esmagadora maioria das vezes, as histórias representam o ponto de vista ocidental.
Revistas nacionais fazem matérias sobre a alienação sentida pelos ocidentais que se mudam para a parte oriental. A escritora ocidental Gabriela Mendling criou uma grande controvérsia com o livro Neuland, no qual ela escreve que foi insultada e ameaçada desde que se mudou para a cidade oriental de Frankfurt an der Oder.
Um criminologista ocidental provocou um grande debate com uma tese de que o sistema comunista de enviar crianças para creches coletivas é uma das causas dos crescentes ataques antiestrangeiros, por ter criado uma mentalidade na qual indivíduos se sentem seguros atuando em grupos.
Mas talvez o que seja realmente importante é que os alemães orientais estão buscando refúgio dentro deles mesmos, e talvez eles não se importem mais com o que os ocidentais pensam.
Cresce a felicidade na Alemanha Oriental, foi a recente manchete do Magdeburger Volksstimme. Cerca de 60% dos alemães orientais entrevistados pelo Centro de Pesquisa de Ciências Sociais para o Berlin-Brandenburg disseram que estavam felizes com sua situação pessoal mais de o dobro que se expressaram assim em 1990.
Eles citaram sua vida pessoal como a maior fonte de felicidade.
A felicidade pessoal contradiz o que se lê, disse Paul-Josef Raue, um alemão ocidental que assumiu como editor-chefe do Magdeburger Volksstimme há um ano.
A Alemanha pode lembrar uma nação internamente dividida. Mas alemães orientais, que subverteram um regime que ditou a vida diária deles por 40 anos, adaptaram aquela experiência para o desapontamento da nova Alemanha democrática, e eles estão encontrando satisfação em casa.
Poucos lêem as poderosas mídias da Alemanha ocidental Der Spiegel, o Frankfurter Allgemeine Zeitung ou o Sueeddeutsche Zeitung voltando-se para a mídia regional ou local.
A maior parte dos ativistas que lideraram os protestos 10 anos atrás voltou para a vida particular, com sua ambição política frustrada por uma acelerada transição para a democracia que viu instituições ocidentais assumirem o controle.
Apenas um punhado de orientais é proeminente na política nacional, e falta de orientais na programação das festividades marcando o 10º aniversário da queda do muro nesta terça-feira levou a troca de acusações. O único líder oriental que irá participar é o presidente do parlamento, Wolfgang Thierse.
Uma grande maioria de orientais, 84%, diz que a vida é melhor sem o muro, segundo uma pesquisa entre 1.245 alemães feito pelo Instituto Forsa para a revista Stern.
Sinais de melhorias físicas não faltam. Chiques lojas de gourmet, lojas de griffe e mesmo sofisticadas lojas de chapéus femininos ocupam lojas de antes decrépitos prédios no centro de Berlim. Mais de 15 mil quilômetros de auto-estradas e mais de 5 mil quilômetros de ferrovias foram modernizados ou ampliados nos estados orientais.
A Deutsche Telkom já investiu US$ 28 bilhões para fazer da rede de telefones da Alemanha Oriental a mais moderna do mundo. Antes de 1990, nove de cada 10 orientais não tinham acesso a telefone, incluindo 3.500 vilas onde não havia nem telefone público. Agora todo o sistema é digital.
Ainda existem fossos entre o ocidente e o oriente em todos os grandes indicadores econômicos: desemprego, renda, exportações, crescimento econômico, produtividade. Mas eles estão diminuindo.
Trabalhadores no lado oriental ganham em média 75% do que seus colegas do ocidente levam para casa, comparado com os 47% em 1991, e eles são cerca de 60% tão produtivos.
Dois anos depois da reunificação, cerca de 35% dos alemães orientais haviam perdido seus empregos com o fechamento de indústrias ultrapassadas, ineficientes, da Alemanha Oriental. O processo de privatização no oriente foi o mais rápido de qualquer outra nação ex-comunista, de 90% de toda indústria sendo estatal em 1990 para 90% sendo privada em 1995.
A maioria dos países não pôde sustentar isto sem algum tipo de revolução ou distúrbios, afirmou John Zindar, diretor de estratégia internacional de uma agência governamental que atrai investimentos para o oriente. Eles puderam fazer isso porque puderam pagar o custo social. O marco da Alemanha Ocidental para os desempregados valia mais do que recebiam como salário.
Mesmo o ex-chanceler Helmut Kohl, que unificou a Alemanha com estonteante rapidez 11 meses depois da queda do Muro de Berlim, tem admitido que ele subestimou os custos da reunificação e o verdadeiro estado de decadência econômica no Oriente.
Ao mesmo tempo, diz ele, ele superestimou a habilidade dos alemães orientais de se adaptarem a uma nova forma de vida incluindo à idéia de democracia depois de quatro décadas de comunismo.
As enormes diferenças de mentalidade são evidentes não apenas em como os alemães orientais e ocidentais se vêem uns aos outros, mas em como eles vêem o papel do estado e suas prioridades pessoais.
Enquanto os alemães ocidentais se mostraram ultrajados com a execução de dois irmãos alemães no estado americano do Arizona há alguns meses, uma recente pesquisa mostrou que 58% dos alemães orientais, comparados com 37% dos ocidentais, são a favor da pena de morte.
A mesma pesquisa entre 1.003 alemães ocidentais e 997 alemães orientais feita por psicólogos da Universidade de Leipzig mostrou que 56% dos orientais se opõem à participação da Alemanha nas operações militares da Otan no exterior, comparados com os 38% no ocidente. Uma esmagadora maioria de orientais, 82%, são contra o estacionamento de armas nucleares americanas na Alemanha, contra 66% na parte ocidental
Alemães ocidentais dão mais importância ao lazer; orientais 17% dos quais são desempregados disseram aos entrevistadores que davam mais prioridade ao trabalho.
Mas a raiz de suas diferenças continua sendo a herança da ditadura por parte dos orientais, que é consistentemente subestimada pelos ocidentais, disseram psicólogos, cientistas sociais e alemães ocidentais que vivem na parte oriental.
Você ainda pode ver isso na alma das pessoas, disse Raue, o editor do Magdeburger Volksstimme.
Em seu livro Os Outros Alemães, Claus Detjen um jornalista alemão ocidental que tem trabalhado no oriente desde 1991 argumenta que a união das duas pontas está sendo dificultada de certa forma pela herança do sistema comunista, que, segundo o autor, tornou difícil para os orientais falarem por eles mesmos e pela convicção dos ocidentais de que a adaptação à reunificação é responsabilidade exclusiva dos orientais.
Mas há sinais de reaproximação se não a diminuição de diferenças, pelo menos uma mudança de perspectiva. A mudança do governo para Berlim neste ano ajudou a ajustar o centro de gravidade, uma vez que a atenção dos ocidentais estão agora voltadas para o outro lado do mapa.
Berth, o psicólogo de Dresden, afirma estar vendo os primeiros sinais de uma discussão sobre uma identidade alemã total. Mas ele sublinha que isso não significa que as diferenças entre o leste e o oeste estão desaparecendo.
Nem poderiam, diz ele. Assim como há diferenças entre alemães do norte e do sul, sempre haverá diferenças entre os alemães do leste e do oeste.





