Victoria Loguinova
France Presse
De Moscou
A organização russa de defesa dos direitos humanos Memorial acusou ontem as tropas federais de ter assassinado ‘‘milhares de civis’’ na Chechênia, fundamentando sua acusação nos depoimentos recolhidos nos campos de refugiados da Ingushétia.
Esses civis foram assassinados ‘‘durante os bombardeios russos ou foram fuzilados’’ pelos militares, disse um responsável da Memorial, Tatiana Kassatkina, durante um encontro com a imprensa em Moscou.
‘‘Não podemos dar uma cifra exata das vítimas, mas são milhares’’, assegurou outro responsável da Memorial, Alexandre Cherkassov.
Uma delegação da Memorial, a entidade defensora dos direitos humanos mais respeitada da Rússia, esteve de 6 a 10 de fevereiro na república russa da Ingushétia, na fronteira com a Chechênia, onde se encontram dezenas de milhares de refugiados.
Junto a uma equipe da Federação Internacional das Ligas dos Direitos Humanos (FIDH), Memorial recolheu ‘‘depoimentos que provam que civis foram assassinados em Chali e Katyr-Iurt (sudeste e sudoeste da Chechênia)’’, declarou Cherkassov.
Segundo estes depoimentos apresentados por Memorial, os povos chechenos eram frequentemente bombardeados depois da partida dos combatentes separatistas. Vários civis foram executados em Grozny ‘‘depois dos saques e operações de limpeza na cidade’’.
As ‘‘operações de limpeza’’ consistem em inspecionar cada casa e lançar eventualmente granadas nos porões para matar os rebeldes que ali estariam refugiados.
‘‘Poderíamos pensar que o inimigo das forças federais é o povo checheno, ao qual deveriam justamente defender contra o terrorismo’’, disse Cherkassov.
Para escapar da violência do exército federal, ‘‘várias centenas de civis abandonaram seus povoados (no sul) e partiram para as montanhas com os combatentes’’, agregou.
Por outro lado, segundo Elisa Mussaieva, também da Memorial, ‘‘a situação nos campos de refugiados na Ingushétia é catastrófica. Faltam alimentos, sofrem com tuberculose e passam muito frio’’,
Segundo a Memorial, na república da Ingushétia há ainda 210 mil refugiados e 16 mil na república vizinha da Ossétia do Norte.
‘‘A Chechênia está repleta de refugiados que procuram um lugar para se abrigar’’, agregou Cherkassov.
O conflito na Chechênia deixou mais de 15 mil mortos entre a população civil, segundo os chechenos. Moscou reconheceu que ‘‘vários centenas’’ de civis morreram na Chechênia desde o começo dos bombardeios, mas rechaçou as acusações de abusos contra a população civil.
Por outro lado, Grozny poderia ser riscada do mapa depois da guerra, pois a Rússia se nega a gastar dinheiro na reconstrução de uma cidade que se transformou no símbolo da rebelião contra o poder federal.
Ontem, os militares russos continuavam derrubando prédios, em sua maioria minados, na cidade cujo controle tomaram há duas semanas.
Grozny não é a primeira cidade que foi destruída depois de um conflito armado – Hiroxima no Japão, Guernica na Espanha ou Dresden na Alemanha –, mas pode ser uma das poucas a ser destinada ao desaparecimento.‘‘Milhares de civis’’ chechenos foram assassinados pelas tropas federais segundo a organização russa de defesa dos direitos humanos Memorial
France PresseCatástrofeCerca de 210 mil chechenos estão em situação precária na Ingushétia

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