Agência Estado
De Lima
O presidente do Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru (Onpe), José Portillo, divulgou ontem um boletim oficial, com 39,1% dos votos apurados, que atribuía ao presidente Alberto Fujimori 49,88% dos votos e ao economista Alejandro Toledo, do partido Peru Possível, 39,98%.
Esses números deixam Fujimori, candidato a um terceiro mandato consecutivo pela Aliança Peru 2000, a 0,12 ponto porcentual de uma vitória no primeiro turno, contrariando as contagens paralelas das três instituições de pesquisa e da Associação Cívica Transparência, que apontam para a realização de um segundo turno, que ocorreria no primeiro domingo de junho.
O anúncio oficial causou reação imediata da Transparência e da Embaixada dos Estados Unidos em Lima. Minutos antes de Portillo divulgar o boletim, a Transparência emitiu uma declaração à imprensa informando o resultado final de sua contagem paralela – 48,7% para Fujimori e 41,5% para Toledo –, frisando que a margem de erro desses números não poderia passar de 0,2 ponto e reiterando que qualquer resultado diferente seria uma fraude.
Na semana passada, o Departamento de Estado e o Senado dos EUA advertiram o governo peruano de que Washington suspenderia a ajuda militar e econômica ao país, caso as eleições não fossem limpas.
Durante todo o dia da eleição, funcionários da Transparência, da Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), do Centro Carter e de outras entidades que se dispuseram a fiscalizar a votação denunciaram uma série de irregularidades, como o recebimento pelos eleitores de cédulas previamente marcadas, restrição aos trabalhos dos fiscais dos partidos da oposição e propaganda eleitoral ilegal.
A tensão sobre as eleições peruanas começou a aumentar no domingo à noite, quando os resultados das contagens paralelas foram divulgados, invertendo os resultados da boca-de-urna, que davam a vitória a Toledo e deixavam Fujimori em segundo lugar.
Reunido a outros seis candidatos – nove concorreram no primeiro turno –, Toledo aguardava diante de uma multidão de 10 mil pessoas, na frente do Hotel Sheraton, no centro de Lima, o primeiro boletim do Onpe. Mas Portillo só chegou à sala onde divulgaria o boletim depois da meia-noite (2 horas em Brasília) e, em vez de dar cifras consistentes, passou a simplesmente ler números dos mapas eleitorais.
No balcão do Sheraton, Toledo só balançava a cabeça diante do público, em sinal de desaprovação. Inesperadamente, sem antes falar com ninguém, fez um temerário convite à multidão: ‘‘Vou pedir-lhes algo, e aos meus companheiros que aqui estão (voltando-se para os candidatos que lhe tinham prometido apoio). Algo que precisamos fazer para que o governo saiba que estamos de pé para evitar a tentativa de reverter a vontade do povo. Vamos marchar ao palácio do governo! Vamos fazer com que nos escutem!’’
‘‘Ao palácio! Ao palácio!’’, passaram a gritar os manifestantes. Cerca de 5.000 começaram a marchar, sob a liderança de Toledo e dos demais candidatos. Ao chegarem, forças especiais da polícia esperavam os seguidores do oposicionista com bombas de gás lacrimogêneo. Policiais e manifestantes não chegaram a entrar em confronto por que as grades de ferro do palácio os separavam.Boletim do Escritório Nacional de Processos Eleitorais coloca Alberto Fujimori na frente, ao contrário das pesquisas de boca-de-urna
France PresseREVOLTA DA OPOSIÇÃODesconfiados dos resultados oficiais anunciados na noite de domingo, populares simpatizantes de Alejandro Toledo responderam à convocação feita pelo candidato oposicionista e marcharam rumo ao palácio do governo. Na foto, momentos de tensão durante o percurso

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