Menos de 24 horas depois de a justiça federal dos Estados Unidos rejeitar, por falta de mérito, a ação civil por assédio sexual de Paula Jones contra o presidente dos Estados Unidos, líderes republicanos admitiram que a decisão transformou a atmosfera política em Washington a favor de Bill Clinton e soaram o toque de retirada. O senador Arlen Spector, da Pensilvânia, foi o primeiro a chegar à conclusão lógica da determinação judicial e praticamente afastou a hipótese de o escândalo sexual que envolve Clinton e ocupa a Casa Branca há mais de dois meses levar à sua remoção.
Dois terços dos americanos concordam. De acordo com uma pesquisa Gallup/CNN, realizada depois de o processo de Paula Jones ter sido desqualificado pela corte federal de Little Rock, em Arkansas, 67% dos eleitores acham que todas as investigações contra Clinton devem ser encerradas e o caso dado por concluído.
Mas é improvável que isso aconteça. Desafiando a nova dinâmica política criada pela inesperada vitória legal do presidente, o promotor especial Kenneth Starr disse anteontem à noite que a decisão sobre o caso Jones não afetará suas investigações sobre crimes de perjúrio e obstrução da justiça que Clinton pode ter cometido para influenciar o depoimento de testemunhas no processo agora descartado.
Os enormes danos que o processo Paula Jones causaram para Clinton, a própria instituição da presidência e para a qualidade do debate político nos EUA provocou a conclusão oposta entre cientistas políticos e comentaristas na imprensa. ‘‘A vitória de Clinton teve um custo enorme, para ele e para o país e mostrou que o sistema não está funcionando bem’’, disse Alexander ‘‘Sandy’’ Maisel, professor de ciência política do Colby College, no Maine.
Maisel e outros estudiosos do governo faziam ontem a mesma indagação que a decisão da corte federal sobre o caso Paula Jones suscitou entre boa parte dos americanos: se o processo de Jones não tinha mérito, por que demorou quatro anos para que o sistema de leis dos EUA produzisse essa conclusão? A resposta legal é simples: sem saber que tipo de provas Jones tinha, os advogados de Clinton levaram quase quatro anos para pedir o julgamento sumário que, como se vê agora, poderia ter liquidado o caso no início e poupado o país.
Nem mesmo a Suprema Corte ficou livre da mancha deixada pelo caso. A decisão do mais alto tribunal americano, em maio passado, negando pedido de Clinton para adiar o julgamento da ação de Jones para depois de suas saída da Casa Branca, revelou-se um equívoco e continuará a ser objeto de debate.
A questão imediata é saber se o fim do processo Jones permitirá a Clinton usar os 34 meses que lhe restam na casa Branca para restaurar sua reputação pessoal e colocar sua imensa popularidade a serviço das prioridades da agenda política - reforma do sistema de seguridade social, investimentos em educação, reforma tributária - que pretende executar para deixar sua marca na história como algo mais do que um maníaco sexual que inspira piadas de mau gosto na televisão.

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