A Operação Condor, o plano coordenado de repressão das ditaduras militares do Cone Sul, estava sepultada até que veio à luz um cemitério de papel: o chamado ‘‘Arquivo do Terror’’ do Paraguai.
Os fantasmas desse cemitério poderiam transformar-se em uma ameaça real para a sorte do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, em caso de um eventual julgamento.
O registro, descoberto no dia 22 de dezembro de 1992, guarda cerca de 700 mil páginas da Direção de Assuntos Técnicos do Departamento de Investigações (polícia política) do ditador Alfredo Stroessner, deposto em 1989.
Os documentos representam 35 anos da história oculta do Paraguai, mas também descobrem o esquema Condor, que ajudou a ceifar vidas e liberdades além das fronteiras dos países sob ditadura.
O documentarista Alfredo Boccia, um médico paraguaio que dirigiu a primeira classificação parcial dos papéis, disse que ‘‘a respeito da Operação Condor, estes arquivos demonstraram sua existência, negada por todos os governos da época, com base em documentação oficial’’.
‘‘Isso afeta Pinochet de forma direta, porque tudo indica que a operação teve início com uma proposta do governo chileno no final de 1975, em uma reunião dos exércitos da região no Chile’’, explicou Boccia.
‘‘No caso chileno’’, disse Boccia, ‘‘com segurança as provas podem conduzir até Pinochet. O Condor transgrediu os limites do permitido para converter-se num ato coletivo de delito político’’.
Martín Almada, um advogado que descobriu os arquivos, disse que eles são ‘‘um centro de documentação que guarda todo o tipo de provas, principalmente sobre a Operação Condor, que foi idealizada por Pinochet como forma de repressão continental’’.
Almada foi convocado por Garzón para depor em Madri como testemunha de acusação contra Pinochet.
Pinochet, governante do Chile de 1973 a 1990, enfrenta um processo de extradição promovido por Garzón, que o acusa de genocídio, torturas e terrorismo de Estado durante seu mandato.
Mas o arquivo não guarda dados sobre os casos mais conhecidos de operações internacionais do regime de Pinochet no exterior: o assassinato do ex-comandante do exército, Carlos Praats, e do ex-chanceler socialista Orlando Letelier.
No dia 28 de outubro, especialistas judiciais encarregados da documentação enviaram ao juiz Garzón cerca de 1.300 páginas com documentos que envolvem de um modo ou de outro o general chileno e outros governantes da época em delitos contra os direitos humanos.

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