O principal órgão de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) condenou Israel ontem por ‘‘violações grosseiras, sistemáticas e generalizadas dos direitos humanos’’ e iniciou uma investigação internacional sobre a violência em Gaza e na Cisjordânia.
Uma sessão especial da Comissão de Direitos Humanos da ONU, formada por 53 países, aprovou por 19 votos a 16 o esboço de uma resolução apresentada pelas nações árabes. Houve 17 abstenções e o representante de um país não compareceu. O anúncio do resultado foi comemorado com aplausos.
A resolução ‘‘condena fortemente o uso indiscriminado e desproporcional da força pelo governo israelense em violação às leis humanitárias internacionais’’ durante os recentes distúrbios ocorridos nos territórios palestinos.
Ela descreve a morte de civis como ‘‘uma violação grave e flagrante do direito à vida’’ e como ‘‘um crime de guerra e um crime contra a humanidade’’.
O embaixador israelense Yaakov Levy atacou a resolução como ‘‘partidária, parcial e inflamatória’’. De acordo com ele, a resolução contém ‘‘linguagem tão violenta que é capaz de agravar as tensões’’.
A resolução pede a criação de uma comissão internacional de inquérito para ‘‘reunir e compilar informações sobre a violação dos direitos humanos’’ e solicita a urgente viagem da alta comissariada para Direitos Humanos da ONU, Mary Robinson, à região para averiguar as violações cometidas pelo governo israelense.
A votação foi atrasada durante diversas horas porque as nações árabes tentavam acertar um compromisso com os países europeus, mas não houve acordo.
‘‘Fizemos concessão atrás de concessão’’, disse o embaixador tunisiano Mohamed Hallem Ben Salem. De acordo com ele, a proposta tem o intuito único de denunciar as violações dos direitos humanos e não se trata de um ato político.
‘‘A morte de civis, o assassinato de crianças por Israel, a autoridade no poder, é em si uma grave violação do direito à vida e também constitui um crime contra a humanidade’’, disse ele aos delegados.
Ben Salem citou como evidências os assassinatos em massa, as punições coletivas, a demolição de casas e o bloqueio dos territórios palestinos.
O texto condena também a ‘‘provocadora visita’’ feita pelo líder direitista israelense, Ariel Sharon, em 28 de setembro, a um local de Jerusalém sagrado para judeus e muçulmanos. A violência iniciou-se após aquela visita.
Os Estados Unidos e os países europeus votaram contra a resolução, enquanto as nações africanas e latino-americanas ficaram divididas.
‘‘Isso não oferece meios de reconciliação entre as pessoas que, apesar do conflito, estavam há tão pouco tempo próximas de um acordo final de paz’’, disse a representante norte-americana, Nancy Rubin.
‘‘Nós compreendemos a fúria de todas as partes que sofreram nesta situação trágica. Todos os envolvidos devem agir de forma responsável para ampliar ao máximo nossas chances de acabar com a violência’’, prosseguiu Rubin.
O embaixador francês Philippe Petit, falando em nome da União Européia (UE), disse estar desapontado com a decisão. ‘‘A comissão tem o dever de defender os direitos humanos em todo o mundo. Ela não deve ceder ao desejo de denúncias de cunho político’’, declarou.
Os membros da comissão de direitos humanos mudam a cada ano, apesar de os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia – também possuírem vaga permanente na comissão.
Israel nunca foi membro porque nunca fez parte de um agrupamento regional até este ano. Quatro Estados árabes são membros, mas as nações sem direito a voto também têm o direito de se pronunciar.
A reunião de emergência é apenas a quinta na história da comissão. As anteriores consideraram situações ocorridas em Ruanda, na ex-Iugoslávia e no Timor Leste.
A noite de anteontem e a madrugada de ontema foram marcadas por tiroteios esporádicos entre palestinos e soldados israelenses, enquanto Israel continuava em estado de alerta máximo depois de ‘‘sérios relatórios’’ sobre um plano de atentado em seu território.
Alguns tiroteios aconteceram na Faixa de Gaza, sem que houvesse feridos, informou um porta-voz do Exército. Soldados também foram alvo de pedradas e coquetéis Molotov no local e na Cisjordânia.
A colônia de Gilo, na parte oriental de Jerusalém, foi novamente alvo de disparos vindos da localidade vizinha palestina de Beit Jala, informou a polícia israelense. Os tiros, contra um dos dois tanques do Exército israelense instalados no local, não feriram ninguém.
Israelenses e palestinos têm até a tarde de hoje para interromper a violência nos territórios e pôr em prática os acordos fechados na reunião de cúpula de Sharm el-Sheikh, na última terça-feira.
Israel afirmava temer atentados em seu território. O ministro israelense da Segurança Interior, Shlomo Ben Ami, afirmou ter recebido ‘‘informações sérias’’ sobre um comando palestino que estaria preparando um atentado em Jerusalém ou na região de Tel Aviv. (Com France Presse)