Mediadores da Organização das Nações Unidas (ONU) tentavam convencer ontem um relutante Yasser Arafat a comparecer a uma cúpula, no Egito, sobre o Oriente Médio patrocinada pelos Estados Unidos, mas a violência persistiu, apesar dos apelos em favor da trégua vindos de todos os cantos do mundo.
Um palestino morreu vítima do fogo israelense e o batalhão de choque da polícia impediu o ingresso de palestinos em um disputado santuário de Jerusalém.
Todos, com exceção do líder palestino, compareceram ‘‘a bordo’’ para a realização de uma reunião durante o fim de semana no complexo turístico egípcio de Sharm el-Sheik, no Mar Vermelho, disse em Nova York um porta-voz da ONU, Manoel de Almeida e Silva. O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, deveria se reunir com Arafat na noite de ontem na Cidade de Gaza.
Ontem, um dia depois de Israel ter bombardeado com helicópteros alvos palestinos, principalmente nas cidades de Gaza e Hebron, manifestantes árabes declararam o ‘‘Dia da Ira’’ contra os israelenses.
Em Ramallah, veículos blindados israelenses abriram fogo de metralhadora durante confronto com os ativistas palestinos. Subiu para pelo menos 95 o número de mortos nos conflitos dos últimos dias, que põem em xeque o processo de paz do Oriente Médio aberto em 1992.
A atual onda de violência teve início com a decisão do líder do partido direitista israelense Likud, Ariel Sharon, de visitar a Esplanada das Mesquitas – local sagrado tanto para muçulmanos quanto para judeus.
Na quinta-feira, uma multidão de palestinos que retornava do enterro de um jovem árabe morto durante os conflitos linchou dois soldados israelenses capturados pela polícia palestina em Ramallah. O bombardeio de Israel às cidades palestinas ocorreu como represália à morte dos dois militares - identificados como Yosef Avrahami e Vadim Nourezitz.
Yasser Arafat, assegurou ontem ao ministro das Relações Exteriores da Noruega, Thorbjoern Jagland, que seu governo está dedicando empenho total à investigação do linchamento dos soldados israelenses. Alguns já teriam sido presos.
Nos últimos dias, a direita israelense tem intensificado as acusações contra Arafat, a cuja inépcia para frear o extremismo atribuem a atual onda de violência.
Israel também acusa a Autoridade Palestina de pôr em liberdade mais de uma centena de integrantes do movimento fundamentalista Hamas, que se opõe ao diálogo de paz e patrocina ações terroristas contra alvos judaicos e israelenses.
Barak propôs na quinta-feira à noite, horas depois do início do bombardeio às cidades palestinas, a formação de um ‘‘governo de emergência nacional’’, com a presença do Likud e de outros partidos considerados sionistas.
A proposta, porém foi recebida com muitas reservas tanto pelos grupos de direita quanto pelo partido pacifista Meretz, que expôs suas restrições a tomar parte de um Executivo integrado também pelo ‘‘falcão’’ Sharon.
Já o Likud, reluta em integrar o governo liderado por Barak por outra razão: os direitistas não acreditam que o governo de Israel esteja disposto a suportar por muito tempo as pressões do exterior para manter sua posição nas negociações de paz.
‘‘Não fazemos oposição a participar de um governo de emergência, mas também não podemos admitir que Barak mantenha às nossas costas negociações de paz de um modo que consideramos inaceitável’’, disse a deputada do Likud Limor Livnat, em declarações à rádio Voz de Israel.
Como condição para tomar parte do governo, o Likud exige de Barak o compromisso de renunciar publicamente às concessões que fez durante a reunião de cúpula de Camp David, em julho.
Entre essas concessões, de acordo com os direitistas, estaria a disposição de Israel de considerar a devolução aos palestinos da soberania de alguns bairros árabes de Jerusalém Oriental.
Na avaliação de membros do governo israelense, o recuo nos compromissos assumidos publicamente ante os mediadores de Camp David teria efeitos desastrosos para a imagem internacional de Israel.
Ao mesmo tempo, esse recuo seria utilizado por Yasser Arafat para converter Barak no responsável pelo fracasso do processo de paz. Assessores próximos do primeiro-ministro israelense afirmam que ele já não esconde sua descrença na continuação dos diálogos de paz.
‘‘O processo de paz naufragou completamente, está acabado e não há nenhuma possibilidade de que seja relançado’’, teria dito Barak durante uma reunião no Ministério da Defesa, segundo o jornal israelense Maariv.

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