Quando se pergunta a um kosovar de origem albanesa num dos campos de refugiados da Macedônia onde ele acha que estão seus parentes que não atravessaram a fronteira, ele levanta a cabeça em direção às montanhas cobertas de neve e é possível vê-lo lacrimejar. Outros choram ou, ainda, mostram raiva. Um mês depois de ter se intensificado o êxodo dos albaneses de Kosovo, uma pergunta incomoda muitos refugiados: ‘O que está acontecendo do outro lado da fronteira?’’
A preocupação com os que estão impedidos de procurar abrigo na Macedônia ou na Albânia, países que fazem fronteira com a Iugoslávia, e a incógnita sobre o que terá sido feito das casas e pertences dos kosovares são mistérios que nem a Otan, a ONU ou os governos dos países envolvidos na guerra com a Iugoslávia sabem resolver. Nas últimas semanas, cresceu o número de refugiados que procuraram sair de Kosovo via Montenegro, a outra República que, com a Sérvia, forma a Iugoslávia.
France PresseRefugiados: choro e raivaNa última quarta-feira, 3.000 alcançaram por ali a fronteira da Albânia e avisaram: há muito mais vindo pelas estradas. O Exército sérvio, segundo eles, já está agindo, e montou um posto de checagem na fronteira das duas regiões, selecionando quem pode continuar e procurar abrigo do outro lado e quem deve ficar e fazer parte do destino que os sérvios reservam para eles em solo iugoslavo.
Os refugiados que estão saindo por Montenegro vêm de pequenos vilarejos das montanhas de Kosovo: Kuciste, Maljevic, Pepic, lugares que foram aparentemente deixados em segundo plano pela polícia sérvia. Atualmente, existem 362 mil refugiados na Albânia, 133 mil na Macedônia e cerca de 66.500 em Montenegro. Os outros países que mais acolheram refugiados até agora são a Alemanha (9.974), a Turquia (3.849) e a Noruega (1.104), seguidos de Polônia (545) e Bélgica (517), segundo dados da ONU.
Na Albânia, milhares estão sendo levados de Kukes, cidade próxima à fronteira, para outros campos ou casas de famílias albanesas. A ONU tenta, ali, fazer um registro e uma contabilidade mínima dos refugiados. A comissão encarregada admite: não será possível completar o trabalho antes do fim de maio.
A Cruz Vermelha, com estações de rádio e uma página na Internet, tem tentado reunir as famílias que foram separadas. A infra-estrutura para acomodação dos refugiados é mais crítica na Albânia, segundo dados do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Ali os campos operam excedendo sua capacidade máxima e as condições sanitárias são precárias. Autoridades locais estão improvisando ginásios e escolas, além de prédios públicos, para abrigar os refugiados. Em Skodra, cidade ao norte da Albânia, um conjunto de fábricas abandonadas abriga 3.000 pessoas, que dormem sobre peças e máquinas usadas.
Já na Macedônia, apesar da hostilidade da polícia local, segundo as reclamações de grande parte dos albaneses, as condições de instalação dos refugiados são bem melhores. Os campos do país estão superlotados, mas as condições de higiene e de amparo médico são consideradas satisfatórias pela ONU.
Nos últimos dias, as negociações têm se desenrolado com o objetivo de que os milhares de albaneses que estão nas montanhas próximas do vilarejo Male Malina possam entrar na Macedônia e ser recebidos nos campos. Segundo a ONU, as condições de saúde atuais dos refugiados nos campos da Macedônia e da Albânia são regulares. A mortalidade causada por doenças caiu muito, mas os principais problemas ainda são os respiratórios, causados pelo longo trajeto percorrido a pé pelas montanhas na fuga de Kosovo.

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