Superada a humilhação este domingo, com o fim da maior tomada de reféns da história da ONU (500 ‘‘capacetes azuis’’ foram libertados), a organização se concentra novamente em torno de sua missão oficial: a aplicação de um acordo de paz em Serra Leoa, que por enquanto só existe no papel.
O sequestro dos cerca de 500 integrantes da força internacional de paz da ONU acabou na noite de domingo, com a libertação em Monróvia do último grupo ainda em poder dos rebeldes da Frente Revolucionária Unida (FRU) de Serra Leoa, desde princípios de maio. Mais uma vez, a libertação foi resultado da mediação do presidente liberiano, Charles Taylor. A maioria dos ‘‘capacetes azuis’’ libertados era da Zâmbia.
‘‘Agora já temos o campo livre. Mas para fazer o quê?’’, resumia ontem um funcionário de uma organização humanitária. Encarregada de uma operação de ‘‘manutenção da paz’’, dentro do acordo firmado em Lomé, em julho de 1999, entre a Frente Revolucionária Unida (FRU) e o governo legítimo, a ONU se viu rapidamente afundada no atoleiro serra-leonês, após a tomada dos reféns.
‘‘O plano de paz não pode ser levado adiante sem o cessar-fogo, previsto pelo acordo de Lomé, que é regularmente violado’’, lembram alguns membros da ONU que pediram anonimato.
As ‘‘forças governamentais’’, aliança entre militares de um exército desmantelado e caçadores tradicionais fazem, por sua vez, um balanço otimista de suas operações e anunciam a ‘‘debandada’’ dos rebeldes.
Mas outros problemas ainda entravam o complicado processo de Serra Leoa. Uma das principais partes interessadas no acordo de Lomé, o chefe histórico da FRU, Foday Sankoh, que encabeçou a revolta, em março de 1991, permanece atualmente detido em local não revelado, em Freetown, pelas autoridades locais.
As Nações Unidas já anunciaram que deixaram de considerar o cabo Sankoh, barbudo místico e carismático, como ‘‘um interlocutor confiável’’ e pediu aos rebeldes que designem outro para prosseguir com a aplicação dos acordos.
Ahmad Tejan Kabbah, presidente ‘‘democraticamente eleito’’ no começo de 1996, após uma campanha controvertida e influenciada pela guerra, considerou que Foday Sankoh, condenado à morte por ‘‘traição’’ e anistiado depois pelos acordos de Lomé, deveria ser novamente julgado, desta vez pelo sequestro dos 500 ‘‘capacetes azuis’’ da ONU.
Com a validade dos acordos de Lomé seriamente questionada, os chefes de Estado da Comunidade Econômica dos Estados da África Oeste (CEDEAO, 15 membros) se reuniram este domingo em Abuya (capital da Nigéria) para tentar atualizá-los.
Essa cúpula decidiu ‘‘deixar a salvo’’ o chefe da FRU, ‘‘provavelmente’’ fora de Serra Leoa, assegurando que poderia ‘‘ser julgado mais tarde’’. A CEDEAO aprovou também o envio de 3.000 homens de apoio aos 11.000 ‘‘capacetes azuis’’ da ONU já mobilizados em Serra Leoa.

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