Deixando para trás mais de 100 mil refugiados, a ONU terminou ontem de retirar todos seus funcionários de Timor Oeste e advertiu que eles não voltarão até que sejam desarmadas as milícias pró-Jacarta nessa província indonésia.
A retirada foi concluída um dia depois do sangrento ataque de milhares de milicianos contra o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) em Timor Oeste. Os milicianos mataram três funcionários do Acnur e dois moradores locais e feriram outras três pessoas, entre elas a brasileira Margarida Rodrigues de Vasconcellos.
‘‘O Exército e a polícia da Índonésia carecem de recursos suficientes na região de Nusa Tenggara para controlar o monstro criado em Timor Leste (as milícias), que agora está do outro lado da fronteira’’, assinalou o chefe da administração provisória da ONU em Timor Leste, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. ‘‘Os funcionários não regressarão até que tenhamos uma demonstração crível de que o governo da Indonésia esteja preparado para protegê-los, assim como aos refugiados. Uma demonstração crível consiste em restabelecer o controle da Indonésia sobre Nusa Tenggara e deter e desarmar as milícias, que são a maior ameaça à segurança da Indonésia e de Timor Leste.’’
O presidente indonésio, Abdurrahman Wahid, prometeu em Nova York que as gangues envolvidas no ataque serão removidas ‘‘em breve’’ da região e disse que discutirá esse assunto com Vieira de Mello. Entretanto, o Exército indonésio, fortemente vinculado à violência que assola Timor Leste e Timor Oeste há um ano, não manifestou muita esperança de que os milicianos pró-Jacarta possam ser controlados logo. ‘‘Há milhares deles, temos de ser cuidadosos’’, afirmou um porta-voz militar, Graito Usodo.
Cerca de cem membros de agências da ONU e de organizações não-governamentais foram levados ontem de avião de Kupang, capital de Timor Oeste, para a ilha de Bali. Sob a escolta de militares indonésios, outras 96 pessoas foram retiradas por terra de Atambua para o território de Timor Leste, administrado pela ONU.
Na quarta-feira, a força de paz da organização em Timor Leste, composta por mais de 8 mil soldados (incluindo 70 brasileiros), já havia retirado 54 funcionários do Acnur de Timor Oeste.
‘‘Muitos partiram consternados por esse horrível acontecimento’’, afirmou Chris Lom, da Organização Mundial de Migrações. ‘‘Alguns comentaram que os milicianos acabaram conseguindo o que queriam’’, acrescentou, referindo-se à retirada do pessoal humanitário.

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