ONU pode ser a próxima vítima da tragédia de Timor
Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
A tragédia de Timor Leste este pequeno pedaço da Indonésia, esta ex-colônia portuguesa anexada por Jacarta em 1975 e hoje submetida a um genocídio porque teve a indelicadeza de exigir sua independência através de um plebiscito tem agora uma primeira vítima, o povo de Timor Leste, que neste momento está sendo esquartejado pelas milícias de bandoleiros antiindependentistas. E poderá fazer uma segunda vítima: a ONU.
A ONU não saiu engrandecida daquela louca façanha de Kosovo, pois foi destituída de toda iniciativa pelos militares da Otan. Em Timor Leste, ainda é pior: enquanto as milícias matam as mulheres e as crianças, massacram os padres, perseguem dezenas de milhares de timorenses, a ONU está inerte. Parece estar em coma profundo. Seu encefalograma está plano...
A inércia da ONU começa a causar indignação. Infelizmente, os que se indignam são com mais frequência pessoas destituídas de qualquer poder.
Os que detêm o poder, os líderes americanos ou australianos, reprovam naturalmente as cenas de perseguição e de sangue em Timor Leste, mas dizem que é preciso esperar. Não é porque bombardeamos Kosovo, que vamos bombardear Timor, diz Sandy Berger, assessor de Clinton. É preciso aceitar o fato de que Timor está na Ásia.
Os que gritam sua indignação não são políticos. São intelectuais, como sempre. Aliás, desta vez, os intelectuais franceses (Beranrd-Henry Lévy e André Glucksmann) não estão na primeira linha. Eles ficaram totalmente atrasados e deixaram que os portugueses e os italianos fossem mais rápidos. Mas não nos preocupemos! Neste exato momento, eles devem estar dando os retoques finais ao texto de seu abaixo-assinado no café de Flore...
Na primeira página de Le Monde, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, expressa aos gritos sua humilhação, sua indignação. Qual é a participação de um habitante de Dili na Bolsa de Nova York?, pergunta ele.
E termina: Quando se porá um fim ao cinismo da mal-chamada comunidade internacional? À hipocrisia dos que comandam? À inércia dos que são comandados? Quando terminaremos de chorar sobre nós mesmos? De dizer que a culpa não é nossa?.
O italiano Antonio Tabucchi (grande escritor que viveu durante muito tempo em Portugal) é mais feroz. Ele descarrega sua cólera contra o secretário-geral da ONU, Kofi Annan: Tome hoje o avião e voe para Timor. Em Dili, dirija-se à sede da Unamet, cercada pelos assassinos. Sente-se numa cadeira e se faça filmar para o mundo inteiro por um cinegrafista que trabalhe, se possível, para uma dessas formidáveis redes que nos fizeram viver a guerra de Kosovo ao vivo. Tabucchi depois de observar que o papa esteve recentemente na Indonésia, país cujo islamismo lhe causa preocupação, mas não disse nenhuma palavra sobre Timor Leste continua, numa lúgubre ironia: Senhor Annan, leve consigo algumas provisões porque, segundo as últimas notícias, os jornalistas ou observadores, bloqueados pelos assassinos, não têm nada para comer nem para beber. Isso tornará sua missão mais espetacular.
O último golpe de Tabucchi é para esbofetear a ONU: Se o senhor não for a Timor, estará dizendo de alguma maneira aos jovens do próximo milênio que a
ONU era uma palhaçada, a democracia uma ninharia e o voto democrático uma farsa.





