ONU é atacada em Dili e o CS se reúne
Associated Press
De Jacarta
As milícias pró-Indonésia atacaram nesta sexta-feira o prédio da Missão das Nações Unidas em Timor Leste (Unamet) em Dili pouco depois de a maior parte dos funcionários ter deixado o local para viajar para a Austrália. O comboio de cerca de 500 pessoas membros da ONU, jornalistas e refugiados foi também atacado a tiros, mesmo sob custódia do Exército indonésio, no trajeto até o aeroporto, de onde seguiu para Darwin, Austrália.
Os milicianos armados entraram na missão da ONU e ameaçaram aproximadamente 1.500 refugiados e cerca de 80 membros da organização que decidiram permanecer em Timor Leste. Enquanto as forças de segurança olhavam sem fazer nada, os grupos armados quebraram janelas, provocaram incêndios e roubaram vários veículos da ONU, com os quais passearam pelas ruas da capital timorense. O Conselho de Segurança das Nações Unidas se reúne hoje para examinar a tragédia do Timor Leste.
O bispo de Dili, monsenhor Carlos Ximenes Belo, chegou ontem a Lisboa e foi recebido como herói por milhares de pessoas, numa manifestação que lembrou outras da Revolução dos Cravos, de 1974. O religioso, obrigado a deixar Timor Leste após ser atacado por milicianos, mostrou-se comovido e impressionado pela recepção, que reuniu o presidente Jorge Sampaio, o primeiro-ministro Antonio Guterres e as principais autoridades portuguesas.
O Prêmio Nobel da Paz de 1996 pediu ajuda da comunidade internacional para conter a violência em Timor Leste e denunciou que os timorenses estão enfrentando um genocídio. A polícia e o Exército colaboram estreitamente com as milícias ou não fazem nada, disse Belo, acrescentando que o comandante das Forças Armadas indonésias, general Wiranto, a quem acusou pelas matanças, deveria ser julgado por um tribunal internacional.
O presidente norte-americano, Bill Clinton, que chegará hoje à Nova Zelândia onde participará da reunião anual da Associação de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), na qual a questão de Timor Leste será tema obrigatório, qualificou de inaceitável a colaboração dos militares indonésios com as milícias.
O chefe das Forças Armadas indonésias disse ontem que seu país aceitará a presença de tropas de paz internacionais em Timor, mas somente no momento adequado. Wiranto declarou que seria pouco prudente a intervenção de forças estrangeiras em Timor Leste quando se está vivendo uma forte reação emocional depois da realização do plebiscito do dia 30 que resultou favorável à independência do território.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, disse que a lei marcial em Timor Leste imposta por Jacarta fracassou e exortou a Indonésia a aceitar sem demora uma força internacional para restaurar a segurança no território.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas realizará neste sábado uma sessão formal para discutir a posição da comunidade internacional frente a situação em Timor Leste. Esta reunião, solicitada por Portugal, está orientada a acentuar as pressões diplomáticas sobre a Indonésia para que Jacarta aceite o envio de uma força internacional a Timor Leste.
O embaixador português, Antônio Monteiro, declarou à imprensa que espera que o Conselho discuta a adoção de uma resolução. O presidente do Conselho, o embaixador holandês Peter Van Walsum, disse que a reunião será realizada em duas etapas: a primeira hoje e a segunda no regresso da missão enviada pelo Conselho de Segurança à Indonésia.
Esta delegação, integrada por cinco diplomatas do Conselho de Segurança, deve viajar de Jacarta para Dili, capital de Timor Leste, à 0h GMT (21h Brasília) deste sábado, agregou o embaixador. A segunda etapa da reunião deve ocorrer até a manhã de segunda-feira. Não esperamos nenhuma resolução ou declaração presidencial neste sábado, advertiu Van Walsum. O embaixador reafirmou que nas atuais circunstâncias o Conselho não dará luz verde para o envio de uma força internacional sem o consentimento da Indonésia.
Funcionários britânicos de direitos humanos disseram ontem que mais de 20 mil pessoas podem ter morrido desde o anúncio do resultado do plebiscito, há uma semana. Membros da ONU que chegaram ontem à Austrália contaram os horrores vistos em Timor Leste. Não há mais nada em Dili. Está deserta. Quase todos os edifícios foram incendiados e podíamos ver a fumaça e as chamas, disse o médico indiano Ruo Koka.O Conselho de Segurança da ONU realiza hoje uma sessão formal. Clinton considera ação do exército indonésio inaceitável
France PresseLimpezaRefugiado timorense chora ao chegar ao aeroporto de Darwin, na Austrália. No destaque, timorenses desembarcam em Kupang, capital de Timor Oeste





