ONU decide manter missão no Timor
Associated Press
De Dili, Timor Leste
Reconsiderando sua posição anterior, as Nações Unidas anunciaram ontem que vão manter em funcionamento sua missão em Dili, capital de Timor Leste, recusando-se a ceder às ameaças dos soldados e milicianos indonésios, que cercaram as instalações da organização.
A Missão da ONU em Timor Leste (Unamet) decidiu que cerca de 40 ou 50 funcionários permanecerão em Dili e a maioria dos 200 membros seria retirada hoje.
Ao mesmo tempo, a Igreja Católica, através de seu grupo de caridade Caritas, denunciou que os milicianos antiindependência massacraram freiras, padres e civis. O grupo disse que teve acesso a relatórios que dão conta de que o seu diretor de operações em Timor Leste, padre Francisco Barreto, foi morto pelo exército e pela milícia.
Em Sydney, a agência missionária Misna denunciou que cerca de 100 pessoas incluindo 3 padres foram mortas em uma igreja da cidade de Suai. Segundo a agência, várias freiras de outras cidades desapareceram ou morreram devido à violência das milícias.
Também ontem, foi confirmado o assassinato do pai do líder rebelde José Alexandre Xanana Gusmão, Manuel Francisco Gusmão, de 80 anos. Ele foi morto anteontem à noite pelos milicianos antiindependência.
A missão da ONU em Timor Leste pôde ontem finalmente ser abastecida pelo Exército australiano, acabando com a perspectiva de uma retirada de emergência. Um caminhão da ONU com alimentos e remédios havia sido atacado pelos milicianos na quarta-feira. As linhas telefônicas, cortadas desde a segunda-feira, também foram restabelecidas.
O anúncio da retirada total do pessoal da ONU de Timor Leste, que seria feita hoje, havia causado consternação entre as pessoas que ainda permanecem em Dili, principalmente entre as que se haviam refugiado no prédio da missão. No sábado, logo após o anúncio do resultado do plebiscito do dia 30, favorável à independência do território, os milicianos pró-Indonésia saíram às ruas saqueando, incendiando e matando, como era previsto.
A imposição da lei marcial não serviu para deter a violência em Timor Leste, afirmou ontem o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. No entanto, ele reconheceu que a noite de quarta-feira foi a mais tranquila dos últimos dias. Aproveitando a relativa calma e as garantias de salvo-conduto, a ONU começou a transferir ontem centenas de pessoas que buscaram refúgio em suas instalações em Dili para a localidade de Dare.
Negando rumores de um golpe de Estado, o governo indonésio insistiu ontem que o presidente B. J. Habibie tem o pleno controle da Forças Armadas e porá fim à violência que já causou a morte de centenas de pessoas em Timor Leste.
Vários analistas consideram que as Forças Armadas são as que na realidade detêm o poder. Em Auckland, Nova Zelândia, onde está sendo realizado o Foro de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), funcionários australianos disseram que o general Wiranto, Ministro da Defesa e chefe das Forças Armadas, havia despojado Habibie da maior parte do poder.
Acusado pela oposição de ser muito brando, Habibie rejeitou ontem novamente o envio de uma força de pacificação a Timor Leste e advertiu que não quer o envolvimento de outros países na crise timorense.
O secretário-geral da Organização para o Tratado Atlântico Norte (Otan), Javier Solana, descartou a possibilidade de uma intervenção da aliança em Timor Leste e sugeriu que, individualmente, alguns países ou a ONU poderiam mandar forças para acabar com os massacres. A Otan bombardeou a Iugoslávia por 78 dias, forçando o presidente Slobodan Milosevic a aceitar um plano de paz, em junho.
O Fundo Monetário Internacional (FMI), por sua vez, advertiu que a Indonésia poderá perder ajuda se não detiver a violência nessa região. O FMI havia oferecido um pacote de ajuda de US$ 12 bilhões para ajudar a Indonésia a sair da severa recessão provocada pela desvalorização da rúpia há dois anos.
Jacarta permitiu ontem que um grupo de delegados do Conselho de Segurança da ONU vá sábado a Timor Leste, indicando que pretende restabelecer a ordem no território antes disso.Igreja Católica denuncia, através de seu grupo Caritas, que milicianos antiindependência massacraram freiras, padres e civis
France PresseMorteFoto de arquivo (1993) dos pais de Xanana Gusmão (destaque), Manuel Francisco Gusmão e Antonia Henrique Gusmão. Manuel foi assassinado anteontem





