São Paulo - Um grupo de especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) acusou ontem de crimes contra a humanidade o ditador da Síria, Bashar Al Assad, e as milícias aliadas ao regime pelo massacre de Houla, em que 108 civis morreram, em 25 de maio.
Os analistas, que pertencem aos 47 países integrantes do Conselho de Direitos Humanos, culparam o governo e os grupos paramilitares, conhecidos como ''shabbiha'', pela ação.
O relatório mostra que, além dos homicídios, as forças do regime são acusadas de tortura, estupro e ataques indiscriminados com envolvimento do alto escalão do governo e dos militares. Aos opositores também são imputados os mesmos crimes, mas ''em menor frequência e escala''.
Para realizar o informe, foram feitas mais de mil entrevistas e trabalho de campo entre 15 de fevereiro e 20 de julho. As informações serão apresentadas em 17 de setembro ao Conselho de Direitos Humanos.
O presidente do grupo, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, disse que a organização está preocupada com o aumento das violações dos dois lados do conflito.
''Estamos preocupados com a intensificação das violações de direitos humanos cometidas por grupos armados. Eles não têm poder (legal) para executar pessoas'', observou Pinheiro. Segundo ele, os rebeldes estão com muito mais acesso a informação e a armas. Pinheiro, contudo, observa que o relatório não compara o grau de violência usado pelos opositores e pelo regime - apenas identifica a mudança na ''natureza do conflito'' desde o último levantamento, do início do ano.
Para a comissão, o regime de Assad também extrapola as regras internacionais que balizam uma guerra civil, como a do país. ''Ainda que as Convenções de Genebra ofereçam legalidade ao governo para fazer algumas ações de guerra, como atacar legitimamente os grupos armados, elas não autorizam bombardear a população civil diretamente. É o que tem acontecido'', diz Pinheiro.
Jornalistas
Pelo menos 25 profissionais da imprensa morreram na Síria desde o começo do ano, informou a ONG PEC (Press Emblem Campaign). ''A Síria se transformou em um lugar tão perigoso para os trabalhadores dos meios de comunicação quanto o Iraque no período entre 2003 e 2006'', afirmou a PEC em comunicado, no qual condenou os ataques contra os jornalistas, tanto por parte das forças governamentais como por parte da oposição armada.
Segundo o relatório desta organização, a situação na Síria ''se agravou ainda mais devido à situação de guerra civil em que o país se encontra, com vários grupos armados sem controle, e por causa de um novo fenômeno: o sequestro''.
Para exemplificar esses dados, a PEC cita os recentes casos de Ali Abbas, chefe da seção de Interior da agência estatal síria ''Sana'', que foi assassinado em sua casa no último sábado, e de Bara'a Yusuf al Bushi, o desertor do Exército que trabalhava para o canal de televisão ''Al Arabiya'' e foi morto em um atentado em Al Tal.
Segundo o relatório da ONG, nos primeiros seis meses de 2012, 72 jornalistas foram mortos em 21 países. A Síria lidera o ranking, em seguida aparecem México (8), Somália (6), Paquistão (6), Brasil (6), Honduras (4), Filipinas (4) e Nigéria (3), entre outros.

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