Moradores acusam estrangeiros pela violência, mas há denúncias contra grupos do crime organizado sul-africano
São Paulo- Mais dois imigrantes foram assassinados ontem, e uma dezena de barracos foram queimados na favela de Tembisa, próxima a Johannesburgo, elevando para 24 o número de mortos na África do Sul desde a eclosão, há nove dias, da atual onda de agressões xenofóbicas.
Segundo o porta-voz da polícia local, Govindsamy Mariemuthoo, cerca de 200 pessoas já haviam sido presas por homicídio, estupro, roubo ou furto.
O arcebispo anglicano Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984 por sua militância contra o regime de segregação racial do apartheid (1948-1994), exortou ontem seus compatriotas a cessarem imediatamente a violência. ''Não é assim que devemos nos comportar. Eles (os imigrantes) são nossos irmãos e irmãs.''
O ex-presidente Nelson Mandela (1994-1999), também Nobel da Paz pela conciliação entre as comunidades branca e negra na sociedade sul-africana, declarou-se entristecido pela violência contra estrangeiros. A fundação que leva seu nome lembrou que em 1995, quando de agressões semelhantes a estrangeiros, Mandela declarou que ''não se pode culpar os outros por nossos próprios problemas''.
Tais problemas estão na incapacidade de os governos pós-apartheid resolverem questões básicas como moradia, abastecimento e ampliação do mercado de trabalho. Há escassez de eletricidade, alta da inflação e declínio da popularidade do atual presidente, Thabo Mbeki, que cuida menos das questões sociais e privilegia a inserção do país no mercado globalizado.
A taxa de desemprego de 23% afeta indistintamente os 44 milhões de sul-africanos e a população imigrante, estimada entre 1,5 milhão e 4 milhões. São sobretudo refugiados do Zimbábue, com grupos menores de malaianos e moçambicanos.
Só em abril, diz o ''New York Times'', mais de mil zimbabuanos atravessaram diariamente a fronteira sul-africana na localidade de Limpopo, para escapar à violência desencadeada pelo ditador Robert Mugabe contra grupos que apoiavam o candidato presidencial da oposição.
A violência é um fator endêmico na sociedade sul-africana. Nos dois últimos anos foram registrados 19 mil homicídios, 52 mil estupros e 80 mil furtos ou roubos. São números comprometedores para a imagem de um país que hospedará em 2010 a Copa do Mundo.
Os moradores de regiões urbanas de mais baixa renda acusam com frequência os estrangeiros de serem os responsáveis pela violência. Há no entanto denúncias de que grupos do crime organizado sul-africano aproveitam a atual crise para ampliar suas atividades.
Vincent Williams, pesquisador sobre imigração no Instituto pela Democracia na África do Sul, diz que responsabilizar os estrangeiros pela criminalidade ''é algo também presente em outros países'' e que a xenofobia já havia irrompido no país logo após o fim do apartheid.

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