O governo israelense decidiu ontem a suspensão, por tempo indeterminado, do processo de paz, depois de um dia marcado por uma verdadeira escalada de violência na qual nove palestinos morreram e mais de 200 ficaram feridos.
O primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, anunciou à noite uma ‘‘pausa’’ no processo de paz ‘‘pelo tempo que for preciso’’, em razão da continuação da revolta palestina.
Essa ‘‘pausa’’ será anunciada formalmente ‘‘imediatamente depois da cúpula’’ árabe, que acontece hoje e amanhã no Cairo, ‘‘principalmente se os acordos não forem aplicados’’, declarou referindo-se aos acordos concluidos na terça-feira na cúpula de Sharm el-Sheikh (Egito), com o objetivo de acabar com a violência nos territórios ocupados.
‘‘Não podemos ignorar o que aconteceu nestas três últimas semanas e fazer como se nada tivesse acontecido’’, disse.
O presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, declarou ontem que os árabes ‘‘estão prontos para enfrentar’’ as ameaças israelenses de fazer ‘‘uma pausa’’ no processo de paz depois da cúpula árabe.
‘‘É uma declaração que esperávamos. É uma declaração dirigida com arrogância a todos os dirigentes árabes e somos capazes de enfrentá-la’’, disse Arafat que chegou ao Cairo para a cúpula árabe.
‘‘Os filhos da nação árabe são mais fortes que todas as declarações’’, acrescentou Arafat.
Esta ‘‘pausa’’ foi decretada ao final de um dia marcado pelos confrontos mais sangrentos em duas semanas entre soldados israelenses e manifestantes palestinos.
Estas batalhas campais deixaram obsoletos os compromissos assumidos pelas duas partes na cúpula de Sharm el-Sheikh. A cúpula tinha dado um prazo para israelenses e palestinos até ontem à tarde para restabelecer a calma.
Durante o dia, um porta-voz do ministério israelense das relações exteriores assegurou que os estado hebreu se mostraria ‘‘flexível’’ em relação a este prazo, e que na realidade não havia uma hora precisa.
Mas a escalada dos confrontos e o aumento do número de mortos durante a tarde aparentemente obrigou Barak a apressar as coisas.
‘‘Podemos agora afirmar oficialmente que a Autoridade Palestina não cumpriu com o compromisso que aceitou tomar em Sharm el-Sheikh’’, afirmou em coletiva à imprensa o porta-voz do governo, Nachman Shai.
Um dos principais dirigentes palestinos, Saeb Erakat, reagiu qualificando esta ‘‘pausa’’ de ‘‘inaceitável’’ e afirmando que era ‘‘provavelmente a condição imposta por (Ariel) Sharon’’, o líder da direita israelense, para fazer parte de um governo de urgência nacional.
Barak e Sharon, o líder do Likud, se reuniram novamente ontem à tarde para discutir a entrada desse partido no governo.
Israelenses e palestinos se acusam mutuamente de ter violado os acordos de Sharm el-Shekh e de serem responsáveis pelos enfrentamentos, cujo balanço era ontem à noite de 123 mortos, em sua imensa maioria palestinos, e milhares de feridos.
Os enfrentamentos nunca cessaram desde que terminou a cúpula de Sharm el-Sheikh, mas explodiram ontem com tal intensidade que se assemelharam aos do início dessa ‘‘Intifada’’ (rebelião).