Washington – Num dos pronunciamentos mais contundentes desde que assumiu a Casa Branca, há 40 dias, o presidente Barack Obama defendeu seu orçamento atacando os que já se manifestaram contra o tamanho e as tintas sociais do programa de gastos de governo para os próximos anos, apresentado por ele na quinta-feira.
  ‘‘Sei que essas medidas não vão cair bem com os (grupos de) interesses e os lobistas que investiram na velha forma de conduzir os negócios e eu sei que neste momento eles estão se preparando para lutar’’, disse o democrata em seu pronunciamento semanal por internet ontem. ‘‘Minha mensagem a eles é essa: eu também estou.’’
  Em tom abertamente populista e amparado nas pesquisas de opinião que ainda lhe dão cerca de dois terços de avaliação positiva, o presidente afirmou que o sistema atual ‘‘pode funcionar para os interesses poderosos e bem conectados que têm comandado Washington por muito tempo, mas não funcionam para mim: eu trabalho para o povo americano’’.
  A proposta, enviada ao Congresso na semana passada, é sua peça de legislação mais ousada até agora, e a que causa mais polêmica. Pede gastos de US$ 3,55 trilhões para o ano fiscal de 2010, que começa em outubro, e prevê um déficit de US$ 1,75 trilhão para o de 2009.
  O primeiro valor bate nos 27% do PIB do país e o segundo passa dos 12%, ambos recordes históricos de gasto e de dívida, não alcançados desde os anos 30. Mas a maior revolução para os padrões americanos é de onde virá o dinheiro - mais imposto para a fatia mais rica da população e as empresas poluidoras, menos subsídios para fazendeiros - e para onde irá - programas sociais como sistema universal de saúde e ações de energia alternativa.
  A iniciativa foi comparada ao ‘‘New Deal’’ de Franklin Roosevelt, em 1932, o conjunto de políticas que reformou o sistema financeiro, estimulou a economia e lançou a rede de amparo social que manteria os democratas no poder por décadas; à Grande Sociedade de Lyndon Johnson, de 1965, que combatia a pobreza e o racismo; e às iniciativas contra o excesso de governo de Ronald Reagan, de 1981.
  A crise dos dois últimos anos deixou o terreno fértil para que Obama tentasse essa mudança de paradigma, disse William Galston, da Brookings Institution. Para o expert em estudos de governabilidade, ele ‘‘tem agora a chance de defender sua tese de um enfoque fundamentalmente diferente’’. Além disso, Obama conta com maioria nas duas Casas do Congresso, e a porção fundamental do Orçamento tem de ser aprovada por metade dos votos mais um. Ou seja: o apoio de republicanos será necessário para as reformas mais profundas, mas não indispensável para fazer o dinheiro começar a rolar.

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