O Vaticano deve agir
Gilles Lapouge
Agência Estado
De Paris
A Indonésia, 200 milhões de habitantes, é o maior país muçulmano do mundo. Em contrapartida, o minúsculo território de Timor Leste tem cerca de 85% a 90% de católicos. Este apego à Roma é explicável. Timor Leste era outrora uma colônia portuguesa, portanto católica. E seus habitantes continuaram fiéis a Roma, mesmo depois que o governo de Jacarta, aproveitando-se da era pós-Salazar em Portugal, anexou Timor Leste em 1975.
Por estranho que pareça, podemos até dizer que o catolicismo progrediu ainda mais desde 1975. Anteriormente, o catolicismo era a religião do colonizador e, neste sentido, confundido com o opressor português. A partida dos portugueses inverte o quadro: o opressor torna-se a Indonésia. E é então que a Igreja realiza seu aggiornamento.
Em 1977, um novo arcebispo é designado. É um timorense que denuncia corajosamente os atentados contra os direitos humanos cometidos pelos indonésios. Em 1988, Roma nomeia outro arcebispo, dom Carlos Ximenes Belo, que se mostra ainda mais virulento contra os indonésios. É agraciado com o Prêmio Nobel da Paz.
Estes engajamentos audaciosos lavam a Igreja de seu antigo pecado colonialista. Em quinze anos, o número de católicos se multiplica por três e a Igreja torna-se inflexível no campo social: educação, cuidados de saúde, luta contra a islamização e contra a língua indonésia, etc. O regime de Jacarta reage com dureza: as missas são vigiadas. São construídas mesquitas nos bairros católicos. Muçulmanos de outras ilhas do arquipélago são enviados para asfixiar os católicos.
Naturalmente, Roma tem grande solicitude por este pequeno território católico da Ásia. Mas Roma é também uma grande potência diplomática e deve temperar suas intervenções. Embora não aprove a anexação de Timor Leste por parte da Indonésia, Roma precisa evitar um confronto. Dom Belo é repreendido por ter exigido, desde 1989, um plebiscito sobre a autodeterminação.
Contudo, há alguns anos, a crueldade cada vez maior dos indonésios acabou causando indignação ao Vaticano. Em 1996, um dos emissários do papa, monsenhor Etchegaray exclamou: Nenhuma agressão conseguirá sufocar a busca incessante e febril da identidade timorense.
Hoje, Timor está em meio ao furacão. As façanhas sangrentas das milícias antiindependendistas causam repugnância, muito embora a comunidade internacional, tão pronta a denunciar um genocídio recentemente em Kosovo, pareça ignorar. Afirma-se que uma centena de fiéis teria sido baleada numa igreja. O Vaticano continua prudente: uma ação fulminante ameaçaria colocar mais perto do perigo os católicos timorenses. Mas ninguém duvida que a eficiente diplomacia do Vaticano deve agir, embora provavelmente nos bastidores.





