O silêncio de Pio XII e o drama dos judeus
O silêncio de Pio XII
e o drama dos judeus
As polêmicas entre o Vaticano e os judeus, que acusam o papa Pio XII e a Santa Sé por terem mantido o o silêncio frente ao Holocausto, remontam a 1963, quando o dramaturgo alemão Rolf Hochhuth lançou a peça O Vigário, denunciando a atitude do papa.
Para defender a memória de seu predecessor, Paulo VI autorizou a abertura dos arquivos secretos do Vaticano a quatro pesquisadores judeus, o francês Pierre Blet (único que ainda vive), o italiano Angelo Martini, o americano Robert Graham e o alemão Burkhart Schneider.
Eles publicaram entre 1965 e 1981 12 livros brancos com Os atos e documentos da Santa Sé relativos à Segunda Guerra Mundial, nos quais se afirma que Pio XII e o Vaticano não só fizeram o possível para ajudar os judeus como condenaram as perseguições.
Segundo os jesuítas, o papa evitava declarações clamorosas por temor às reações de Hitler. Em numerosas ocasiões várias personalidades judias solicitaram a João Paulo II que autorizasse a abertura dos arquivos secretos.
O Vaticano rechaçou sempre esses pedidos, já que existe uma ordem do papa de que apenas podem ser consultados os arquivos até 1939, antes da Segunda Guerra Mundial. Como todo Estado, a Santa Sé consente a abertura de seus arquivos depois de um período de tempo que vai de 50 a 60 anos.
Tanto o padre Blet como o padre Graham (que morreu há três anos) afirmaram sempre que em seus chamados livros brancos figuram todos os documentos encontrados nos arquivos.
A polêmica se reavivou ano passado com a publicação do livro do intelectual católico britânico John Cornwell, O Papa de Hitler, no qual qualifica Pio XII de antijudeu.
O escritor cita uma carta escrita em 1919 pelo então núncio apostólico em Berlim, futuro Pio XII, que fala de um revolucionário russo e judeu, a quem descreve como pálido, sujo, sem expressão nos olhos, voz rouca, vulgar, repugnante, com um rosto ao mesmo tempo inteligente e dissimulado.
Segundo o padre Blet, a carta foi escrita por um colaborador da nunciatura e não pelo núncio Eugenio Pacelli.
O papa Pio XII era amigo dos alemães, embora não fosse pró-nazista nem anti-semita. Se tivesse sido anti-semita não teria ajudado os judeus de Roma a encontrar os 50kg de ouro que exigia Kappler (chefe das SS em Roma), afirmou Cornwell em outubro passado.
O jesuíta francês, professor da Universidade Pontifícia Gregoriana, lembrou que Pio XII evocou em sua mensagem no Natal de 1942 as centenas de milhares de pessoas destinadas à morte por causa de sua nacionalidade ou de sua raça.
Ao lembrar em dezembro o processo de beatificação de Pio XII no Vaticano, o prelado português José Saraiva Martins, prefeito da congregação para a Causa dos Santos, assegurou que a história confirmou que as decisões de Pio XII em relação aos judeus foram justas e que sua atitude era a única possível que se podia adotar. (F.P.)





