O mundo hesita em reagir e o Brasil se apequena
O mundo hesita em reagir
e o Brasil se apequena
Marcos Cesar Gouvea
De Londrina
A noite foi longa no Brasil enquanto o dia se desenrolava no Timor Leste. Depois das últimas notícias, no domingo à noite, graves, porém não tão aterradoras, as informações fluíam de madrugada da agência portuguesa Lusa. O horror crescia. Ficava claro que o exército indonésio passava a agir junto com as milícias integracionistas. E começaram os ataques em massa contra a população indefesa.
Os prédios das Nações Unidas, da Igreja Católica, hotéis que hospedavam os jornalistas que teimaram em ficar, as embaixadas, os hospitais: a Indonésia iniciava o genocídio no Timor Leste. A máscara do governo indonésio caiu. Jacarta mente há dias, afirmando que procura garantir a segurança no Timor. Ontem mesmo, ministros indonésios notadamente o chefe do exército, general Wiranto, e o ministro do Exterior, Ali Alatas estavam, em Dili, se limitando a ficar no aeroporto, enquanto o caos tomava conta da capital. Os governos ocidentais e o Conselho de Segurança nas Nações Unidas hipocritamente condenavam a matança. Decidiu-se, em Nova York, por mandar uma missão a Jacarta para consultas.
O governo português solicitou de forma dramática a intervenção de uma força internacional. Inutilmente. Recebia votos de solidariedade de Paris, simpatia de Madrid, preocupação de Washington, indignação de Tóquio, Londres, Sidney... Mas só, enquanto o rio de sangue começava a correr. Do Brasil, nada. O governo de FHC e o Itamaraty só se pronunciaram no início da noite com uma nota pífia.
Os relatos, minuto a minuto, da Agência Lusa, mostraram durante toda noite o horror. A Casa Eclesiástica, do bispo católico Carlos Ximenes Bello, Nobel da Paz, foi atacada e incendiada. Por um longo período temeu-se pela morte do bispo. Na madrugada, a informação de que tinha sido retirado de helicóptero pela Missão das Nações Unidas. A própria Unemet foi atacada. Os militares e paramilitares indonésios buscavam assustados timorenses que se abrigavam na casa do bispo Ximenes e em outras igrejas. Por toda a Dili, a caçada contra a população continuava. E execuções.
Os homens da Frente de Libertação do Timor Leste (Falintil), acantonados no território por força do acordo para a realização do plebiscito, estavam desarticulados. A força, que resistiu durante 24 anos, procurava esboçar uma reação. Leandro Isaac, dirigente do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) foi contatado através do celular pela Agência Lusa. Desarmado, fugia em Dili com alguns companheiros das milícias em seus calcanhares. Tensão, nervosismo. Isto tem sido um inferno, disse, ofegante conforme a agência, antes de a ligação cair.
Em várias cidades do território, o espetáculo era o mesmo. Dezenas de mortos. Relatos tenebrosos, como uma criança de três anos, estrangulada e jogada no fogo. Cabeças espetadas em estacas.
E governos do mundo todo refletiam. O pragmatismo que gerou a tragédia da invasão indonésia há 24 anos parecia, ainda ontem, persistir. Avaliava-se as consequências econômicas para os países da Ásia de uma invasão do Timor por forças de paz, sem a autorização de Jacarta. Avaliava-se o possível recrudescimento da luta por liberdade nas Molucas, em Aceh, no mar de ilhas e etnias contra a ditadura da Ilha de Java. Avaliava-se a possível ruptura do governo Habibie com o exército. E é claro, as consequências econômicas de eventual desagregação da Indonésia.
Ontem à tarde, a Anistia Internacional denunciava: não sobrou ninguém para fiscalizar os direitos humanos no Timor. A noite desceu sobre o território. O mundo ainda hesitante. O Brasil esboçando a sua frágil e inexplicável ambiguidade. E não se sabia se Leandro Isaac e seus companheiros conseguiram escapar.





