Reggio Calábria – Cerca de 15 horas no mar separam a costa líbica da Itália, dependendo das condições do mar e da embarcação. Foi o que empregou Nahom Aron, de 21 anos, originário da Eritreia, país localizado no "chifre" da África. Mas a sua viagem começou muito antes, quatro meses atrás, assim como acontece para a maioria dos imigrantes que decidem arriscar tudo para chegar à Europa. Em janeiro, Aron saiu de Asmara de ônibus em direção ao norte do Sudão. De lá, atravessou a pé o deserto – a etapa mais difícil e mais mortífera – até chegar à Líbia. É como um jogo eletrônico, em que se começa com várias vidas e no final resta apenas uma: a travessia do Mediterrâneo.
O dinheiro pago – de 1,5 mil a 2 mil dólares – pode garantir um lugar mais "confortável" no barco, mas não o suficiente para garantir condições humanas. Não há banheiro, o vômito é frequente e a maior parte do tempo se viaja no porão, com pouca ventilação e altas temperaturas. As doenças mais comuns são sarna e piolho. A primeira triagem médica ocorre ainda em alto-mar, quando são resgatados pela marinha italiana. Os doentes são identificados e recebem os tratamentos iniciais antes de desembarcarem. Às vezes, é preciso esperar dois ou três dias até pisar em terra firme, para dar tempo de desinfetar as estruturas que os acolherão. Jamais se misturam os sobreviventes de outros desembarques, para evitar contaminações. E os imigrantes só seguem viagem dentro da Itália depois de completamente curados.

A REALIDADE
Com Aron, chegaram outros 400 africanos – somalis, gambianos, ganeses e senegaleses. Muitos são menores de idade. O mais novo tem 12 anos e viaja totalmente desacompanhado. Ninguém morreu na travessia. Passadas duas semanas, todos eles se encontravam ainda na cidade onde desembarcaram: Reggio Calabria, a apenas 2,5 km da Sicília, à espera de que os companheiros de viagem doentes se restabeleçam. Uma vez curados, prosseguem de ônibus em grupos de 40 pessoas até o destino indicado pelo Ministério da Imigração Italiana, de acordo com a disponibilidade dos municípios espalhados por todo o território nacional.
Em Reggio Calabria, estão alojados em estruturas improvisadas, como um ginásio de esporte e uma creche da diocese local. Ali recebem três refeições diárias. Mas os dias totalmente ociosos à espera de conhecer a próxima etapa geram descontentamento, tédio e impaciência. Quarenta menores escolhem fugir, mas, sem rumo, aceitam voltar sob a custódia do Estado. Os imigrantes são cidadãos livres, podem decidir abandonar o centro de acolhimento, mas a partir dali serão considerados clandestinos.
Além da doença, outro motivo pode impedir de seguir viagem. Quem opta por não se identificar não pode deixar a estrutura. A lei internacional prevê que o imigrante fica vinculado ao país que registra suas impressões digitais. Grande parte não quer ficar na Itália, mas se estabelecer em outras nações, como Alemanha e Suécia. Aron, por exemplo, diz ter amigos na Suíça. Chegam à Itália já instruídos, com números de telefones em mãos e sabendo se convém ou não pedir asilo político. Para esta ponte, Milão e Roma são as metas mais almejadas, mas a decisão cabe às autoridades italianas. Parte do grupo de Aron, por exemplo, teve que se contentar com Crotone, um município de pouco mais de 60 mil habitantes na região da Calábria. Os menores ficam sob tutela do Estado até os 18 anos.

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