O Apocalipse de João
Kenneth L. Woodward
Da Newsweek
De Nova York
A Bíblia começa com a criação do mundo, antes do início do próprio tempo. Termina com uma horrível visão do fim do mundo, quando o tempo já não existe. Para a maioria da História ocidental, a época em que o mundo começou é motivo de curiosidade. Mas prever o fim (fim em itálico no original) é uma paixão
devoradora.
De todos os livros da Bíblia, nenhum atiçou a imaginação do Ocidente mais que o último: o misterioso Apocalipse. Os quatro cavaleiros do Apocalipse, o livro celestial com sete selos, a besta com a marca 666, a Prostituta da Babilônia, o enganoso anticristo estas são apenas algumas das vigorosas e perturbadoras imagens que a Revelação injetou na arte e consciência ocidentais. Suas profecias têm até maior importância: a volta dos judeus à Terra Santa, o reino milenar de Cristo na Terra, a Batalha do Armagedon e a promessa de um novo céu e Terra têm justificado inúmeras guerras e revoluções e inspirado utopias e seitas religiosas de todo tipo.
Sonhos do milênio e pesadelos apocalípticos sempre estiveram quase à tona da psique americana principalmente agora, quando o terceiro milênio se aproxima. Claro que poucas pessoas pensam seriamente que o apocalipse virá à 0h01 do ano-novo; algumas das que acreditam vão chegar a Jerusalém no fim do ano cultivando a expectativa do milênio, levando a polícia israelense a ficar em estado de prontidão.
O catastrofismo cristão a visão do fim dos tempos vem de um livro misterioso escrito por João, profeta cristão que viveu no exílio na Ilha de Patmos quase no fim do primeiro século. Sua intenção era advertir as incipientes comunidades cristãs da Ásia Menor a não fazer concessões ao Império Romano e ao seu culto do imperador divino. Mas a mensagem de João assumiu a forma de uma revelação pessoal de Cristo, repleta de bestas místicas, anjos vingadores e aterrorizantes tribulações para a humanidade em meio a forças cósmicas que se chocavam. Haveria muito sofrimento no mundo profetizou João antes de Cristo em pessoa voltar para derrotar seu adversário humano, o anticristo, na Batalha do Armagedon. Então Cristo instauraria um reino do milênio na Terra para os justos. A seguir, depois de um choque final com Satã, Cristo submeteria a julgamento todos os vivos e os mortos.
Para os justos, haveria uma Jerusalém celestial um novo céu e uma nova Terra. Mas o significado exato da revelação metafórica de João ficou oculto em estranhos símbolos que desde então os cristãos tentam decifrar.
Toda a história ocidental pode ser lida através do prisma do Apocalipse de João, diz o historiador Bernard McGinn, co-editor de uma recente Encyclopedia of Apocalyptcism, em três volumes.
Saber se o Apocalipse de João (o termo significa revelação) é uma previsão do futuro ou uma interpretação simbólica da situação dos cristãos na época aflige há muito teólogos da Igreja. O cristianismo primitivo ressuscitou o espírito há muito dormente da profecia hebraica e, ao fazê-lo, recorreu a precedentes judaicos. Grande parte das imagens herméticas usadas por João foi tomada de empréstimo de Ezequiel, Zacarias e principalmente dos sonhos de Daniel. Ele também usa números como código para letras. Assim, a besta cujo número é 666 se traduz por Nero, o imperador louco que havia perseguido cristãos; suas sete cabeças referem-se aos sete primeiros imperadores romanos. Da mesma forma, o número 1.000 não denota um período de 10 séculos, pois simboliza um período indefinido de longa duração.
Em resumo, os estudiosos contemporâneos da Bíblia agora acreditam que João não estava prevendo um futuro distante. Estava situando as provações das Igrejas do primeiro século numa batalha cósmica mais ampla entre Cristo e Satã. A exemplo dos primeiros profetas, ele queria que os cristãos soubessem que os fiéis seriam recompensados e seus opressores, punidos.
Pois, enquanto a Igreja primitiva sofria perseguição, a visão que João tinha de um salvamento divino era envolvente e consoladora. Mas no terceiro século julgou-se que o apocalipse de João não merecia ser incluído entre os livros canônicos da Bíblia. Jerônimo e outros pais da Igreja pensavam que a visão de João sobre o fim dos tempos incentivava o fanatismo religioso (lendo-o, um bispo levou seu rebanho para o deserto e aguardou o fim) e suas polêmicas contrárias aos romanos provocavam discórdia civil desnecessária. Agostinho definiu o que logo se tornaria a posição oficial da Igreja Católica: não se devia interpretar literalmente, nem como uma previsão do futuro, a Revelação de João, mas como uma alegoria da luta diária entre o bem e o mal, a Igreja e o mundo. Com base nisso, o Apocalipse foi oficialmente aceito como Escritura.
Ainda assim, cristãos da Idade Média queriam saber onde é que ficavam no cronograma de Deus. Não tinham relógios, nenhum calendário universal para registrar a passagem dos séculos, muito menos assinalar o fim do primeiro milênio. Mas tinham em abundância guerras, escassez de alimentos e calamidades naturais exatamente os sinais que, segundo disse Jesus, indicariam o fim dos tempos. A sociedade medieval vivia à sombra do apocalipse iminente, mas esta apreensão muitas vezes estimulou a atividade missionária. Convencido de que a volta de Cristo estava próxima, o papa Gregório (590-604) enviou um grupo de monges para o norte a fim de converter a Inglaterra, onde seu líder, Agostinho, se tornou o primeiro arcebispo da Cantuária e um santo.
A Idade Média foi fértil em especulações feitas por monges doutos sobre a localização de sua era em relação ao fim dos tempos. O mais importante deles foi Joaquim de Fiore. Ele afirmava que uma revelação pessoal descerrara o segredo do Apocalipse de João como chave para entender a Bíblia inteira. Em essência, Joaquim constatou que toda a História estava dividida em três épocas progressivamente mais espirituais: a era do Pai (o período do Velho Testamento), a era do Filho (o período a partir de Cristo) e uma época que logo viria, a do Espírito Santo, na qual novas ordens religiosas revitalizariam a Igreja e, com isso, purificariam toda a raça humana. Joaquim julgava sua época um período de transição e crise: ele acreditava que o anticristo já se achava vivo em Roma e sua derrota traria o fim daquela época, em 1260.
Sonhos sobre o milênio sempre foram um problema para as igrejas oficiais da Europa. Quando um frade visionário informou ao papa Benedito XIV que o anticristo havia chegado e já tinha três anos de idade, o papa ficou visivelmente aliviado. Então vou transferir o problema para meu sucessor, disse. O que tornou o Apocalipse de João tão duradouro é que qualquer figura odiada ou reverenciada podia ser identificada como um dos participantes míticos de seu enredo simbólico sobre o fim dos tempos. Para alguns que viveram no final da Idade Média, a figura era o imperador Frederico II; para os partidários de Frederico, era o papa Inocêncio IV, cujo nome se podia transpor para o sinal sinistro da besta 666. Para muitos cristãos, era Maomé ou os turcos em geral, cujos exércitos ameaçavam devorar a Europa.
Sucessivamente, Napoleão, Hitler, Stalin e até Mikhail Gorbachev (que parecia ter o sinal da besta na fronte) entraram para a lista de anticristos.
Martinho Lutero foi o primeiro a identificar o papado com o anticristo. A princípio, minimizou a importância do Apocalipse de João. Mas depois viu nele a revelação de que a Igreja de Roma era o anticristo enganador que secretamente servia a Satã. Para ele, o papado era a sinagoga de Satã e o reino da Babilônia e do verdadeiro anticristo opinião que viria a tornar-se dogma para todas as Igrejas protestantes. Em 1641, escreve o historiador Eugen Weber em Apocalypses, seu brilhante novo livro, um clérigo podia ser denunciado ao Parlamento (britânico) por declarar que o papa não era o anticristo.
Também os católicos receberam profecias e advertências sobre o fim dos tempos no século 19. Elas vieram numa série de aparições da Virgem Maria em Lourdes e outros pontos da Europa. Depois de sua aparição a Catherine Labouré em Paris, em 1830, a Igreja criou uma medalha milagrosa para distribuição entre os fiéis. Nela havia uma imagem da Virgem aparecendo como a mulher envolta pelo Sol, figura extraída diretamente do Apocalipse de João.
Embora as profecias de João visassem aos cristãos, também tiveram enorme significado para os judeus. Segundo uma antiga tradição, o anticristo será judeu, mas o que predomina na profecia cristã é a volta dos judeus à Terra Santa e a reconstrução do templo de Jerusalém como prelúdio da conversão dos judeus a Cristo. Esta visão tornou os cristãos fundamentalistas para os quais o cumprimento da profecia é prova da verdade literal da Bíblia um dos mais tenazes partidários do sionismo ao longo do último século. Ela explica por que a fundação do Estado de Israel, em 1948, criou expectativas de que a contagem regressiva rumo ao Armagedon havia seguramente começado.
Saber se fundamentalistas e outros cristãos proféticos vão sofrer no final dos tempos ainda é para eles causa de controvérsia. Eles introduziram uma cláusula de escape no enredo sobre o fim dos tempos: o êxtase. Quer dizer que, ao som de uma trombeta, todos os cristãos autênticos ascenderão a meio caminho do céu no momento em que Cristo começar a descer. Carros não terão motoristas, aviões não terão pilotos e filhos perderão os pais se eles estiverem entre os eleitos secretos.
Outras pessoas acreditam que até os eleitos passarão pelo menos parte dos sete anos do inferno na Terra que Deus planeja para os maus. Pelo menos uma igreja, em North Hollywood, tomou providências para preservar sua prosperidade caso seus diretores desapareçam durante o êxtase. As seguradoras da igreja concordaram em adiar pagamentos de prêmios por sete anos, até o momento em que os extasiados voltarem.
Exilado em sua ilha, João de Patmos nunca imaginou que seu texto apocalíptico se tornaria um manual para a interpretação de acontecimentos históricos. A exemplo da maioria dos cristãos do primeiro século, ele pensou que o fim fosse iminente. E só se pode ficar imaginando como ele reagiria aos que, ao longo da história, usam sua visão para justificar a violência, a guerra, a paranóia e até o ódio.
Embora muito lido por razões erradas, o Apocalipse de João insiste em verdades sólidas que nenhum crente sério pode ignorar. Uma é que os pecadores têm motivos para temer um Deus que, tendo decidido criar o mundo, pode também decidir destruí-lo. A segunda é que os justos têm motivos para depositar esperanças num Deus que não desampara os que lhes confiam suas vidas. Pensar no fim do mundo a exemplo de imaginar o fim da gente é doloroso. Mas o estudo do Apocalipse pressupõe que até o fim do mundo é um apanágio de Deus. E como dizer que a batalha mítica entre Cristo e o anticristo, descrita por João, não é uma visão válida do próprio significado da história da humanidade?





