Associated Press
e France Press
De Kampala
Suicídio coletivo em Uganda mostra o poder das seitas apocalípticas na África, onde grupos religiosos se converteram em uma espécie de messianismo armado
A Polícia de Uganda revelou ontem que o número de mortos no suicídio em massa dos integrantes da seita apocalíptica ocorrido no sábado pode passar de 600. Até ontem, foram confirmadas 235 mortes no incêndio que arrasou o templo do chamado ‘‘Movimento para a Restauração dos Dez Mandamentos de Deus’’.
Os seguidores da seita colocaram fogo no templo, situado em Kanungu, a cerca de 320 quilômetros da capital Kampala, enquanto rezavam e entoavam hinos religiosos.
Segundo o porta-voz da polícia Eric Naigambi, os corpos carbonizados dificilmente poderão ser identificados pelos médicos. ‘‘Os cadáveres estão uns em cima dos outros; é um espetáculo horrível’’, disse Naigambi.
Antes de colocar gasolina e outros produtos inflamáveis e atear fogo, os seguidores da seita fecharam portas e janelas do templo.
Segundo um dos investigadores, não se pode excluir a hipótese de que o líder da seita tenha iniciado o incêndio. No entanto, a polícia está trabalhando com a hipótese de suicídio coletivo. Se confirmada essa tese, foi o segundo maior da história contemporânea. Só é superado pelo ritual em que morreram 914 seguidores do pastor Jim Jones, em Jonestown, na Guiana, em 1978.
A cifra inicial de 250 mortos foi informada pela polícia em função do número de homens adultos membros da seita. No entanto, habitantes da cidade informaram que no templo havia cerca de 600 pessoas, inclusive mulheres e crianças, aparentemente atraídas pelo anúncio da seita de que haveria uma aparição da Virgem Maria.
A seita ‘‘Restabelecimento dos Dez Mandamentos de Deus’’ é representativa do predomínio de um cristianismo que também se mostra rebelde ao regime de Uganda e cujo grupo mais ativo é o chamado ‘‘Resistência Armada do Senhor’’.
Em Uganda, Quênia, Tanzânia, Ruanda e Burundi, uma parte do cristianismo indígena, com grande predominância nas zonas rurais, transformou-se em movimento milenarista às vésperas do ano 2000.
No transcurso dos últimos meses, a polícia ugandense desmantelou duas seitas, acusando-as de serem uma ameaça para si mesmas e para a comunidade.
A proliferação de seitas, segundo o governo, faz pairar uma ameaça sobre a coletividade. O movimento de rebelião mais ativo em Uganda, a ‘‘Resistência Armada do Senhor’’, também surgiu de uma seita nascida no norte do país.
Em Uganda, o fenômeno converteu-se numa espécie de ‘‘messianismo armado’’ com a cruzada lançada pela líder Alice Lakwena, conhecida como ‘‘a mensageira’’.
Seu ‘‘Movimento do Espírito Santo’’ misturava cristandade e crenças tradicionais e já ameaçara militarmente, em 1986, o poder do presidente Museveni, mas seus homens acabaram dominados pelo exército um ano depois.
O movimento, no entanto, encontrou um herdeiro, Jospeh Kony, parente de Alice Lakwena, que dirige desde 1989 a temida ‘‘Resistência Armada do Senhor’’.
Em setembro passado, a polícia atacou um acampamento da ‘‘Igreja da Última Mensagem de Advertência Mundial’’, que albergava uma seita cujos membros eram acusados de sequestrar crianças e praticar abusos sexuais em menores.
Esta seita, instalada em uma granja no centro do país, praticava o culto do Julgamento Final, dirigido a um suposto ‘‘profeta’’, Wilson Bushara, em Bukoto, condado de Nakaseke.
Segundo Eric Naigambi, os membros da seita eram exclusivamente tutsis e bahimas do Sul de Uganda, Burundi, norte da Tanzânia e leste da RDC.
No início do ano passado, Bushara anuncira publicamente que o fim do mundo seria no dia 30 de junho de 1999. Em novembro, a polícia dispersou uma reunião ilegal de uma seita adeta à jovem profetisa Nabassa Gwajwa, no oeste de Uganda. Gwajwa, de 19 anos, afimava ter morrido em 1996 e ter sido enviada por Deus de novo à Terra para exortar o povo a se arrepender de seus pecados ante a chegada do novo milênio.

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