Caracas, Venezuela - O número de mortos pelo duplo terremoto que atingiu o norte da Venezuela há quase três semanas chegou a 4.700, enquanto o número de feridos permanece próximo de 17 mil, segundo o boletim oficial mais recente divulgado nesta terça-feira (14).

Os dois fortes terremotos consecutivos, de magnitude 7,2 e 7,5, ocorridos em 24 de junho, abalaram o norte do país, especialmente o estado costeiro de La Guaira, vizinho da capital.

Pelo menos 4.734 pessoas morreram e 16.740 ficaram feridas, detalha o balanço divulgado no Telegram pelo presidente do Parlamento, Jorge Rodríguez, que afirma que a maioria desses feridos já recebeu alta hospitalar.

As autoridades evitam falar sobre o número de desaparecidos, mas, segundo a ONU, esse total pode chegar a 50 mil pessoas, no que é considerado um dos piores terremotos já registrados na América Latina.

O desastre afetou mais de 800 edifícios, dos quais 190 desabaram.

Em La Guaira, o epicentro da tragédia, os desabrigados instalaram-se em estádios, quadras esportivas, praças e até mesmo nas calçadas, onde voluntários prestam atendimento médico e distribuem alimentos.

Quase 21 mil pessoas vivem em acampamentos provisórios, de acordo com dados oficiais.

RESTOS MORTAIS

Dezenas de pessoas ainda procuram os restos mortais de seus familiares entre os escombros, enquanto retroescavadeiras realizam os trabalhos de remoção dos destroços.

Com a escova de uma vassoura e as próprias mãos, Daniel González remove poeira e pedaços de concreto de uma abertura escavada sob uma laje. Pouco a pouco, um crânio começa a surgir entre os escombros: é o primeiro indício de seu primo, que ele procura há 18 dias.

Félix Astudillo foi uma das mais de 4.500 vítimas fatais do duplo terremoto que atingiu o norte da Venezuela em 24 de junho. Ele participava de uma comemoração no segundo andar do edifício Residências Arichuna, no setor de Los Corales, em La Guaira, o estado mais afetado. A estrutura desabou e ele ficou soterrado sob toneladas de concreto.

Daniel chegou ao local no dia seguinte e encontrou o prédio em ruínas. O trabalho das máquinas colocava em risco os corpos presos sob os escombros. Sem formação técnica específica, ele assumiu a liderança das buscas, mudou o método de trabalho e já recuperou uma dezena de corpos.

A motivação era encontrar o primo, com quem cresceu como se fosse um irmão.

"Meu objetivo é retirar meu irmão e também as outras 10 ou 11 pessoas que ainda faltam, porque sinto que todas são da minha família", afirma o joalheiro de 35 anos.

"Elas merecem um enterro digno, porque é muito difícil para uma mãe ou um pai (...) carregar essa incógnita pelo resto da vida", acrescenta.

A poeira cobre suas roupas pretas. As luvas de tecido gastas revelam mais de duas semanas de trabalho exaustivo.

Ele dorme poucas horas em uma barraca montada a poucos metros do edifício e, durante o descanso, continua pensando nas buscas, nos corpos recuperados e no que ainda precisa ser feito.

FAREJADORES

Um grupo de socorristas voluntários, policiais e bombeiros cerca a abertura onde finalmente encontraram Félix. Com uma esmerilhadeira, eles cortam cuidadosamente as barras metálicas das colunas que bloqueiam o acesso. Ainda é preciso remover parte dos escombros para retirar o corpo em decomposição sem causar mais danos.

Assim que localizaram o cadáver, um forte odor de decomposição tomou conta do ambiente. Esse tem sido um dos principais indícios usados pelos socorristas nas buscas.

O cheiro indica onde procurar. Em seguida, com fotos dos apartamentos enviadas por familiares, eles estudam a estrutura para definir onde abrir novas passagens.

"Não parecemos toupeiras, parecemos farejadores", brinca Daniel, em referência aos socorristas mexicanos conhecidos como "Topos".

"Nós nos guiamos pelo cheiro, tiramos fotos e começamos a escavar. É um trabalho duro, mas, graças a Deus, conseguimos retirar 11 corpos intactos usando esse método", explica.

"ATÉ A MORTE"

Daniel estudou ciências forenses. A tragédia o levou a colocar em prática seus conhecimentos para identificar e preservar os corpos encontrados.

Sua experiência permitiu reconhecer o primo imediatamente. Apesar do avançado estado de decomposição, bastou observar a dentição para confirmar que seu "irmão" havia morrido sob os escombros.

"É difícil. Eu sempre estive com ele. Ele sabia que eu estava ao lado dele nos momentos bons e ruins. E aqui estou eu, seguindo em frente, até a morte", diz, enquanto as lágrimas começam a escorrer.

"Eu cumpri o que prometi a ele: que iria resgatá-lo."

Entre a esperança e o trabalho intenso de busca, Daniel ainda não teve tempo para processar a perda.

"Acho que essas lágrimas que estou derramando são pelos 11 corpos que já retirei e pelos outros dez ou mais que ainda estão aqui", reflete.

Abalado, ele examina os pertences de Félix encontrados em uma bolsa ao lado do sofá onde descansava quando o edifício desabou. Observa atentamente o documento de identidade, os cartões bancários, a carteira e o celular destruído. Em seguida, guarda cada objeto com cuidado em um saco plástico.

"Pelo menos agora minha família vai poder ficar em paz", diz.

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