O presidente taiuanês Chen Shui-bian estendeu a mão a Pequim ao não excluir, em seu discurso de posse, ontem, a possibilidade de uma ‘‘China única’’ no futuro, declaração que as autoridades de Pequim receberam favoravelmente, apesar de sua desconfiança.
‘‘Ao mesmo tempo que confirmamos os princípios da democracia e da paridade, e depois de construir, basedo em fundamentos existentes, as condições da cooperação graças à boa vontade, achamos que os líderes de ambos os lados (do estreito) possuem habilidade e criatividade suficientes para tratarem juntos da questão de uma ‘China única’’’, declarou Chen. O novo presidente prometeu igualmente não proclamar a independência da ilha desde que Pequim não recorra à força militar para obter a reunificação de Taiwan ao resto da China.
O presidente taiuanês também prometeu não incorporar na Constituição da ilha um princípio, formulado por seu predecessor Lee Teng-hui, que preconizava relações de ‘‘Estado a Estado’’ entre Taipé e Pequim.
Por ocasião do que pode ser considerada uma da primeiras transições pacíficas e democráticas de poderes na história da civilização chinesa, Chen preferiu não atiçar o fogo. ‘‘Os povos de ambos os lados do Estreito de Taiwan possuem as mesmas raízes culturais e históricas’’, recordou o ex-dissidente, preso em Taiwan sob o poder nacionalista. Chen Shui-bian prestou juramento ontem, em Taipé, como décimo presidente da República. Sucede no cargo Lee Teng-hui, que permaneceu 12 anos no poder.
Por sua parte, as autoridades chinesas informaram que estão examinando a possibilidade de chegar a um compromisso com Taiwan sobre a questão de ‘‘uma China única’’, sugerindo um ‘‘diálogo’’ no qual cada parte expressaria sua interpretação desse princípio pelo qual Pequim reivindica sua soberania sobre a ilha.
A China denunciou a falta de ‘‘sinceridade’’ de Shui-bian, mas, de forma surpreendente, abriu uma porta para o diálogo, pela primeira vez desde a vitória do candidato ‘‘independentista’’ de Taiwan.
Em sua declaração imediata à posse, a agência para assuntos taiuaneses do Partido Comunista Chinês (PCCh) e do Governo admitiram que Chen se comprometeu em não proclamar a independência de Taiwan, mas não reconheceu explicitamente o conceito de ‘‘China única’’ como exigem os dirigentes chineses.
Os especialistas, no entanto, vêem nesta declaração chinesa a primeira concessão de Pequim a Chen desde sua eleição. ‘‘Isto confirma que os chineses estão dispostos a aceitar uma definição mais vaga do princípio de China única e a voltar à mesa de negociações’’, observou, em Hong Kong, Jean-Pierre Cabestan, diretor do Centro de Estudos francês sobre a China contemporânea.
Até a eleição de Chen, em 18 de março passado, a ilha de Taiwan, cujo nome oficial é República da China, foi governada pelos nacionalistas do partido Kuomintang. Estes últimos consideram a República de China, criada em 1911, como a ‘‘autêntica’’ China. No entanto, Chen, membro do Partido Democrático e Progressista (DPP, independentsta), prometeu não substituir este nome pelo de República de Taiwan, algo inaceitável para o regime de Pequim.

mockup