Philippe Coste
France Presse
De Lusaka
Depois do entusiasmo inicial demonstrado pelos líderes das agências da ONU com a chegada da nevirapina, uma nova espécie de medicamento contra a Aids, os especialistas jogaram um verdadeiro balde de água fria ontem na platéia da Conferência de Lusaka (Zâmbia) no último dia do amplo debate sobre a doença, ao anunciar que o remédio não estará disponível logo.
‘‘Trata-se de uma grande conquista para reduzir a transmissão da Aids de mãe para filho e tentaremos consegui-lo o mais rápido possível, mas o medicamento ainda não foi registrado nem patenteado’’, informou, lamentando, David Alnwick, um dos técnicos da Unicef (Fundo da ONU para o Desenvolvimento da Infância), para decepção dos participantes da conferência no país africano.
Segundo ele, a nevirapina não estará diponível ‘‘antes de seis meses a um ano’’. Esse medicamento permite reduzir para a metade a transmissão do vírus da mãe para o filho, depois de um tratamento de apenas três dias e por um custo de US$ 4.
Mas Chewe Luo, responsável pela luta desenvolvida contra a Aids em Zâmbia, advertiu que ‘‘com a taxa atual de fertilidade das mulheres do país, se o medicamento não estiver disponível rapidamente, corremos o risco de nos deparar logo com o númerode 24 mil a 32 mil bebês nascidos com o vírus da Aids’’.
A conferência de Lusaka esteve marcada também pelo anúncio do próximo lançamento de um teste de uma vacina desenvolvida por britânicos e quenianos, em seguida a outro teste realizado em conjunto por americanos e sul-africanos.
Seth Berkley, presidente da Associação Iavi (International Aids Vaccine Initiative), disse aos jornalistas que nos próximos anos ‘‘deveremos fazer três ou quatro testes de novos imunizantes, em parceria com vários países’’. ‘‘A única maneira realista de pôr fim à epidemia da Aids é aperfeiçoando uma vacina e isto deve ser uma prioridade científica e política’’, enfatizou.
Apenas 1,5% do total do dinheiro empregado para lutar contra a Aids, ou seja, o montante que vai de US$ 250 milhões a US$ 300 milhões, é dedicado à busca de uma vacina; e a África subsaariana, que só conta com um décimo da população mundial, registra 83% dos casos mortais.
Depois de anos de espera, os delegados não se privaram durante a conferência de denunciar o ‘‘egoísmo ocidental’’, num momento em que o vírus afeta 16.000 pessoas por dia em todo o mundo.
Os ‘‘Estados Unidos gastam anualmente US$ 880 milhões para lutar contra 40 mil novos casos anuais de Aids, mas a África, que nesse mesmo período de tempo deve enfrentar 4 milhões de novos infectados, dispõe de menos de US$ 160 milhões’’, recordou Carol Ballamy, diretora da Unicef, destacando que a situação vivida ‘‘é simplesmente inadmissível’’.
Esquecida en parte pelos caros coquetéis (combinações de três medicamentos) nos países desenvolvidos, a epidemia alastrou-se na África, onde nasceu; no ano passado, provou ser dez vezes mais mortífera que todas as guerras, matando mais de 10 milhões de pessoas e transformando o continente em verdadeiro ‘‘campo de execuções’’, finalizou Carol.

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